Review | Pequenas Tragédias: O tesão e a memória como ato de resistência

Como uma fábula, dividida em contos, o diretor Daniel Nolasco reconta sua vivência na cidade de Catalão, em Goiás, em Pequenas Tragédias. O que à primeira vista parecia uma cinebiografia sobre sua juventude como um homem homossexual em um lugar que “não é pequeno demais para todos serem parentes, nem grande demais para você ser só mais um”, logo transborda. O relato individual cede espaço a um inventário coletivo de várias existências e existências LGBTQIA+ que viveram território.

Guilherme Théo como Daniel Nolasco no filme “Pequenas Tragédias”. Crédito: Divulgação

O tom cômico e episódico adotado por Nolasco é tão envolvente que nos mantém constantemente conectados à narrativa e aos personagens. Conduzidos por Guilherme Théo através das ruas e dos corpos de Catalão, acompanhamos um filme que não tem medo de ser explícito. A obra expõe corpos e o tesão como expressões de beleza e como um poderoso ato de resistência contra a histórica imposição de “ficar no armário”. Com sagacidade, Nolasco se apropria de estereótipos para criar uma crítica afiada entre a liberdade de ser e o deboche de ressignificar signos frequentemente usados para ofende

Um dos maiores acertos do longa é a recusa consciente em transformar a dor em espetáculo. Como o próprio diretor ressalta:

“Eu não queria reproduzir a brutalidade que recai sobre os corpos LGBT. Não queria que um homofóbico, ao assistir ao filme, tivesse uma catarse. Queria, isto sim, incomodá-lo. Daí o cuidado que tomei ao contar a história de Samuel. Não queria reproduzir preconceitos.”

Cena do filme “Pequenas Tragédias”. Crédito: Divulgação

Embora traga o título de Pequenas Tragédias, o filme deixa claro que nenhuma intolerância é pequena. Por menores que pareçam a princípio, toda forma de invisibilizar a existência do outro é profundamente dolorosa. E, mesmo sem entregar um final tradicionalmente “feliz”, o filme recusa-se a se entregar à desesperança. O que prevalece é uma afirmação viva, que celebra o corpo, o desejo e o amor com total orgulho e liberdade.

Cena do filme “Pequenas Tragédias”. Crédito: Divulgação

Exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Pequenas Tragédias ainda não tem previsão de estreia nos cinemas comerciais brasileiros enquanto segue sua trajetória pelos festivais, mas fica desde já como uma recomendação imperdível.

Nota: 4,5/5

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