A história real de Amyr Klink ao se tornar o primeiro homem a cruzar o Atlântico Sul sozinho em um barco a remo, nos anos 1980, é uma das aventuras mais fascinantes da navegação mundial. Diante de um feito tão icônico realizado por um brasileiro, é quase impossível não se sentir atraído a assistir à sua adaptação cinematográfica. Em 100 dias, longa dirigido por Carlos Saldanha e roteirizado por Elena Soarez e Thais Tavares, essa expedição histórica ganha contornos de superproduçã. Contudo, o que na vida real foi uma jornada extraordinária de coragem e disciplina, na telona acaba se transformando em uma experiência extenuante para o público.

O filme acompanha o jovem Amyr (Filipe Bragança) a bordo do IAT, um pequeno barco a remo desenhado por ele próprio. No isolamento do oceano, a travessia entre a África e o Brasil se desenrola como uma batalha contra o medo, a solidão e os próprios demônios. Enquanto o corpo resiste às intempéries do mar, a mente de Amyr revisita memórias e conflitos familiares.
Na tentativa de transformar o confinamento solitário do navegador em um espetáculo acessível, Saldanha recorre à sua vasta experiência em grandes produções para dar ares fantásticos à narrativa. O diretor aposta em efeitos visuais, tempestades implacáveis e sequências lúdicas envolvendo animais marinhos, buscando construir um épico ao estilo Disney. O problema é que esse visual não consegue mascarar a falta de conexão com a história.

Apesar da simpatia e do talento de Filipe Bragança, o filme falha em criar uma emoção genuína entre nós e o protagonista. Acompanhamos a rotina de Amyr no mar, suas soluções engenhosas e as lembranças ocasionais de como ele e sua equipe de voluntários resolveram os dilemas da embarcação e da alimentação, por exemplo. No entanto, esses detalhes práticos perdem o impacto porque a narrativa não nos faz sentir o peso interno daquela conquista; não sentimos que aquela jornada tinha um motivo e que foi verdadeiramente sonhada e vivida na sua dimensão humana.

Ao final dos 100 dias, a sensação é de sairmos da sessão sem conhecer o navegador. Que a travessia técnica foi considerada mais importante do que a pessoa conduzindo os remos. Um feito histórico que resultou em um filme potencialmente bonito, mas incapaz de emocionar.
O longa foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e estreia nos cinemas no dia 29 de outubro de 2026.
Nota: 2,5/5
