I Love Boosters mostra que, na realidade surreal em que vivemos, às vezes é preciso recorrer ao absurdo para expor como o mundo realmente funciona.

No longa, acompanhamos a história de Corvette (Keke Palmer), Sade (Naomi Ackie) e Mariah (Taylour Paige), três amigas que moram em um restaurante de frango abandonado. Elas se sustentam furtando roupas de grifes famosas para revendê-las por preços populares em São Francisco, ficando conhecidas como Velvet Gang. Corvette sonha em se tornar estilista e admira o trabalho de Christie Smith (Demi Moore), decidindo participar de um concurso promovido pela marca da designer. Sua inscrição é rejeitada por não se encaixar nos padrões da indústria, mas logo em seguida ela descobre que Christie plagiou seu desenho e o colocou à venda. Revoltada, Corvette se une às amigas em um plano para roubar todo o estoque da estilista, espalhando o caos no mundo da moda.

A princípio, I Love Boosters parece apenas uma comédia divertida e despretensiosa sobre jovens que encontram no furto de roupas um ganha-pão fora do comum. Porém, o que começa quase como uma aventura despretensiosa ganha camadas cada vez mais profundas na realidade absurda construída pelo diretor Boots Riley.
Quando essa chave vira, o olhar do espectador é direcionado para novas questões. A grande sacada do diretor em estabelecer esse tom logo no início evita que sua crítica social vire apenas uma piada final (punchline) para dar sentido ao filme no último minuto.
As protagonistas amam moda e admiram Christie Smith, mas é justamente das lojas da estilista que as boosters subtraem as peças. O roteiro desenvolve nelas uma consciência de classe afiada: independentemente do fascínio pela designer, elas entendem que a sobrevivência e o cuidado com os seus iguais vêm em primeiro lugar. Além de garantirem o próprio sustento, elas democratizam o acesso a roupas que a maioria jamais poderia pagar a um preço justo — uma lição bem ao estilo Robin Hood.

A crítica social ganha ainda mais peso quando o filme introduz Jianhu (Poppy Liu). A personagem trabalha em uma fábrica de roupas de Christie Smith na China, sob condições extremas de exploração laboral. Riley escancara que o luxo vendido por fortunas no Ocidente é sustentado pelo trabalho precarizado do outro lado do mundo. É impossível não sentir o baque. Mas como em I Love Boosters nada é convencional, a maneira como Jianhu chega aos Estados Unidos é absurdamente peculiar, algo que vale a pena descobrir diretamente na sala de cinema.
Em diversos momentos, I Love Boosters lembra Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022), principalmente ao usar situações surreais para discutir temas urgentes. O surrealismo casa perfeitamente com a proposta nos dois casos — e confesso ter gostado ainda mais desse. Com uma narrativa hiperdinâmica e diálogos rápidos que quase não dão espaço para respiro (o que funciona perfeitamente aqui), Riley constrói uma obra visualmente estilosa e vibrante. A enxurrada constante de informações trazida pela montagem pode parecer excessiva para alguns, mas funcionou perfeitamente para mim.

Com um elenco perfeitamente afinado com a visão de Boots Riley, I Love Boosters é uma comédia excelente, cheia de conteúdo e capaz de proporcionar uma experiência extremamente divertida nesse final de ano.
O longa foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e tem estreia agendada nos cinemas brasileiros para o dia 19 de novembro de 2026.
Nota: 4/5
