Crítica | Fjord: Atuações intensas sustentam um debate moral incômodo
Quando o Estado e a religião entram em choque, até que ponto um pode se sobrepor ao outro?
Cena do filme “Fjord”. Crédito: Divulgação
Em Fjord, dirigido por Cristian Mungiu, uma família romeno-norueguesa conservadora deixa a vida que conhecia para recomeçar em uma pequena cidade da Noruega. A mudança, porém, ganha contornos dramáticos quando educadores encontram contusões no corpo da filha mais velha e começam a questionar a maneira como os pais criam aquelas 5 crianças. Enquanto a escola e o serviço de proteção infantil tentam entender o que aconteceu, a família se vê no centro de um acalorado debate sobre limites, valores e responsabilidade parental. Entre diferentes concepções de cultura e moralidade, antigas convicções são colocadas à prova e, conforme as suspeitas aumentam, todos se veem diante de dilemas éticos difíceis e consequências imprevisíveis.
Fjord, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2026, começa parecendo uma história simples sobre uma família que se muda de país e precisa lidar com choques culturais. Em seguida, a trama se complica a partir da suspeita de que os pais teriam agredido a filha, transformando-se temporariamente em um drama sobre violência doméstica. Mas o filme se transforma mais uma vez ao acrescentar a reação daquela comunidade à religião da família, profundamente cristã e conservadora, que pauta a criação dos filhos sob regras rígidas.
Cena do filme “Fjord”. Crédito: Divulgação
Contudo, o longa não trata dessas questões de forma isolada; ele nos mostra o quanto elas estão intrinsecamente conectadas. É aí que percebemos que Cristian Mungiu não está falando apenas sobre aquela família em específico, mas sobre a política, a cultura e a religiosidade de toda a nossa sociedade.
Uma das características mais impressionantes de Fjord é sua capacidade de fazer o espectador questionar as próprias convicções. Para o público cristão, o primeiro impulso pode ser achar que a escola, representando aqui as políticas públicas e o Estado, não deve intervir na maneira como os pais educam seus filhos. Essa percepção, contudo, é colocada em xeque quando a violência entra em pauta. Afinal, é legítimo criar os filhos sob dogmas religiosos, desde que essa criação não descambe para a violência.
Por outro lado, quem defende que é dever do Estado se manter vigilante, em especial no ambiente escolar, pode sentir que os limites são ultrapassados quando os motivos para essa intervenção, como a remoção das crianças do convívio familiar, não se mostram suficientemente claros. O problema surge quando uma decisão dessa gravidade acaba nas mãos de pessoas movidas apenas pela convicção de que aquela religião está errada.
Cena do filme “Fjord”. Crédito: Divulgação
Afinal, qual é o limite? Se uma religião dogmática impõe conceitos extremos e as crianças os reproduzem em forma de preconceito no ambiente escolar, não caberia à instituição intervir? Essa intervenção deveria ficar restrita às salas de aula ou cabe ao Estado impor limites para proteger o futuro dessas crianças e seu impacto na sociedade? Fjord não entrega nenhuma dessas respostas prontas. E talvez nem devesse.
Mungiu ainda constrói uma atmosfera que potencializa as sensações que o filme pretende provocar. Ao ambientar a história em uma pequena e isolada cidade norueguesa, o diretor cria a ilusão de um enredo estritamente local, quando, na verdade, nos coloca diante de um microscópio observando a sociedade como um todo. Todos os elementos universais estão ali concentrados, controlados com maestria pela direção. Destacam-se também rimas visuais instigantes, como o uso de uma avalanche nas montanhas para pontuar o dia em que a escola nota os machucados da menina e, mais tarde, em outro momento decisivo da história.
O elenco brilha ao traduzir a complexidade de cada papel. Sebastian Stan surge praticamente irreconhecível e constrói uma raiva contida no personagem que gera um incômodo palpável no espectador, a sensação constante de que ele pode explodir a qualquer instante.
Contudo, o grande destaque da produção é Renate Reinsve. Na pele de uma mãe que sofre brutalmente pela perda dos filhos, a atriz entrega as nuances de uma mulher que aceita rigidamente os dogmas religiosos, o que a torna intolerante, ao mesmo tempo em que se dedica com fervor a ajudar o próximo. Ela se torna a figura que sintetiza as contradições do filme.
Cena do filme “Fjord”. Crédito: Divulgação
Por outro lado, a obra apresenta alguns excessos. O arco do personagem Åke, o avô da família vizinha, é um exemplo de subdrama dispensável que pouco altera o resultado final. Embora ele ajude a reaproximar as duas mães, essa ligação poderia facilmente ter sido construída por meio do vínculo das filhas Elia e Noora — uma relação com bastante potencial que acabou perdendo espaço.
O núcleo processual e do julgamento é outro ponto frágil. Ainda que seja central para escancarar o embate entre Estado e religião, toda a condução da investigação, a coleta de evidências, o processo de apreensão das crianças e, principalmente, os depoimentos soam frágeis. As conveniências podem incomodar os espectadores mais atentos a dramas de tribunal.
Apesar desses deslizes, Fjord tem tudo para se consolidar como um dos grandes filmes da temporada. Mais do que isso, é uma obra provocativa que rende debates profundos e absolutamente necessários após a exibição. Vale muito a pena conferir.
Fjord foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e estreia nos cinemas dia 4 de fevereiro de 2027.