Review | Chicas Tristes (Sad Girlz): A força de uma amizade para atravessar a dor

Uma viagem pro México através do olhar de duas jovens que encontram no apoio mútuo a única saída após o impacto de uma violência. Chicas Tristes é, certamente, um dos melhores filmes exibidos na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. A diretora Fernanda Tovar entrelaça os sonhos da juventude em um verão caloroso de férias com as protagonistas Paula e La Maestra, fazendo com que o público se apaixone imediatamente e torça de forma íntima pela felicidade de ambas.

Pôster de “Chicas Tristes”. Crédito: Divulgação

Paula (Darana Álvarez) e La Maestra (Rocío Guzmán) têm 16 anos, são inseparáveis e se destacam como as nadadoras da equipe em que treinam para o Campeonato Pan-Americano Júnior. No entanto, essa rotina muda drasticamente após uma festa em que Paula fica a sós com Daniel, colega do time e uma paixão antiga. O que parecia um momento inofensivo no banheiro transforma a vida de Paula. Nos dias seguintes, tomada pelo distanciamento e por uma tristeza profunda, o comportamento de Paula chama a atenção da amiga, que insiste até que a verdade venha à tona. Ao tentarem nomear o ocorrido — a devastadora constatação de um estupro —, o trauma coloca o vínculo das duas à prova: enquanto Paula precisa de tempo e silêncio para absorver o choque, La Maestra sente a urgência incontida de agir.

Cena de “Chicas Tristes”. Crédito: Divulgação

Vencedor do Urso de Cristal de Melhor Filme na seção Generation 14plus do Festival de Berlim, o longa equilibra a tensão sufocante do tema com a leveza da adolescência. O roteiro de Fernanda Tovar é ágil e incrivelmente natural. O longa não nos faz sentir meros espectadores de uma narrativa distante, mas sim confidentes sentados ao lado das personagens, presenciando conversas reais, dúvidas honestas e até pesquisas espontâneas no ChatGPT. Mesmo nos momentos mais melancólicos, a narrativa não se afunda no desespero, carregando na figura de La Maestra uma chama constante de esperança.

O grande pilar do filme está na entrega arrebatadora de Rocío Guzmán. Ela interpreta uma amiga capaz de tudo, inclusive de ultrapassar os limites das vontades de Paula na tentativa de ajudá-la. Suas atitudes podem ser questionáveis, mas em nenhum momento duvidamos do amor visceral e protetor que sente pela amiga. É um verdadeiro fenômeno. Darana Álvarez também brilha ao traduzir a dor e o processo doloroso de compreensão de Paula. O elenco que órbita elas complementa essa dinâmica com extrema graciosidade: Tomás García Agraz, como o irmão de La Maestra, traz uma sensibilidade mística e deliciosa nas interações fraternas, enquanto Tatsumi Milori, no papel de Raz, arremata com perfeição as conversas da dupla, mesmo em uma participação menor.

Cena de “Chicas Tristes”. Crédito: Divulgação

Embora a fotografia e a direção sejam grandes destaques, é a forma afetuosa como o roteiro conduz a compreensão do trauma que nos captura por inteiro. Chicas Tristes é daquelas obras raras em que a vontade do espectador é passar o verão inteiro ao lado daquelas garotas, abraçando Paula e vivendo a intensidade de La Maestra.

Chicas Tristes ainda não tem uma data de estreia nos cinemas brasileiros.

Nota: 5/5

Deixe um comentário