Crítica | Funk: Aly Muritiba traz o baile para o meio da sala de cinema

Eletrizante e carismático, Funk dá vontade de levantar da cadeira no cinema e participar da festa. É, certamente, um dos títulos mais divertidos da 50ª Mostra SP.

Cena do filme “Funk”. Crédito: Divulgação

Sabrina (Duda Santos) é uma jovem funkeira que conquista os bailes das favelas cariocas com talento e carisma. Filha de MC Priscila, uma pioneira do funk que viu a carreira desmoronar após o sucesso, ela vive com a mãe no Morro dos Prazeres, onde as duas mantêm uma relação marcada por conflitos. A rotina muda quando Sabrina chama a atenção de Alberto, um influente produtor musical que enxerga nela o potencial para se tornar uma grande estrela. Porém, o caminho para a fama tem um preço: Sabrina precisará transformar sua imagem e se afastar das próprias raízes.

Aly Muritiba tem um olhar único para retratar o Brasil, e em Funk não é diferente. Sua forma de filmar nos aproxima das pessoas e dos lugares apresentados, mesmo que exista uma certa distância da parte mais dura da realidade daquela comunidade e do próprio movimento. O longa adentra o universo do funk no Morro dos Prazeres, mas, se você espera encontrar o tráfico ou a repressão policial conduzindo a história como uma crítica social pesada, pode esquecer — esse não é o objetivo nem a proposta do filme. Aqui, essas camadas surgem de maneira mais superficial, pois a obra prefere focar nas relações familiares, na amizade e na busca por um sonho.

A estrutura narrativa em si não é onde reside a maior força do filme. Na trama, Sabrina busca realizar seu objetivo e acaba cedendo a pessoas distantes de sua realidade para conquistá-lo, perdendo-se no processo e se afastando daqueles que ama. Trata-se de um arco já abordado inúmeras vezes sob as mais diversas temáticas. E, mesmo que Muritiba tenha buscado parcerias genuínas — como MC Nem, que também integra o elenco —, a obra não é renivadora.

O que compensa essa previsibilidade é o quanto o filme se revela cativante. O diretor cria personagens com os quais o público facilmente se conecta, potencializados pelas excelentes e carismáticas atuações. Assim, a obra nos envolve na batida do funk e não dá vontade de que chegue ao fim.

Duda Santos representa com precisão aquela artista que você gosta e por quem torce genuinamente. Duda e sua Sabrina se comunicam perfeitamente com o espectador, fazendo com que a gente queira acompanhar cada passo de sua trajetória, como alguém que seguiríamos nas redes sociais.

Cena do filme “Funk”. Crédito: Divulgação

Todo o elenco ao redor da protagonista funciona e acompanha sua força. MC Nem é o grande destaque ao interpretar a mãe de Sabrina, construindo uma relação que serve como espelho e alerta sobre o futuro da jovem. Lellê interpreta Raíssa, a melhor amiga da protagonista e coresponsável pela contagiante energia do primeiro ato.

Por outro lado, o núcleo do “asfalto” não mantém o mesmo nível. Tanto o DJ Jorginho quanto o empresário Alberto soam caricatos e pouco lapidados, são esqueciveis em comparação a personagens tão cheios de vida.

A divisão do arco entre essas duas fases da carreira de Sabrina também é um tanto desbalanceada. Passamos a maior parte do tempo acompanhando a luta inicial no morro, ao lado de Raíssa, mas, quando a narrativa desce para o asfalto, tudo acontece rápido demais. Em uma cena, Sabrina assina o contrato com o empresário; na seguinte, já está famosa, rica e fazendo um show descaracterizado de suas origens. O percurso entre um ponto e outro não é explorado. Talvez por ser a primeira parte muito mais cativante tenha existido essa preferência na montagem — o que, de certa forma, pode até ter beneficiado o ritmo final.

Funk é aquele filme gostoso de rever várias vezes, que sempre empolga e melhora o dia. Certamente um trabalho que faz o espectador sair muito feliz da sala de cinema.

O longa tem previsão pra estrear nos cinemas em abril de 2027.

Nota: 3,5/5

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