Crítica | O Sertão de Nossas Memórias: O resgate histórico pelos caminhos da ditadura

No documentário O Sertão de Nossas Memórias, a diretora Lucia Murat nos leva de carona em um road movie que reconecta, de forma muito próxima e íntima, a sua própria história à de outros companheiros perseguidos pela ditadura militar brasileira.

Cena do filme “O Sertão das Nossas Memórias”. Crédito: Divulgação

A jornada de Lucia parte do Rio de Janeiro rumo ao sertão da Bahia para recapitular um dos episódios mais marcantes do regime. Com a ajuda de três sobreviventes, a produção retorna às cidades onde, em 1971, o exército realizou a operação que resultou nas mortes de Carlos Lamarca, considerado o inimigo público número um da ditadura, e de José Campos Barreto, o Zequinha, líder comunitário e figura central de uma das poucas greves operárias após o golpe de 1964. Décadas depois, o filme recupera as memórias daqueles que viveram o período e mostra os esforços dessas comunidades para que a vida e a luta desses homens não fossem esquecidas.

Assistir a esse filme em São Paulo, durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema, enquanto na Avenida Paulista acontecia uma manifestação de extrema-direita com apoiadores vestindo camisas que pediam a volta da ditadura, foi uma experiência que ultrapassou a tela. Acompanhar os relatos de prisões, torturas e exílio com a presença da própria Lucia e de mais dois sobreviventes na plateia, que assistiram ao filme e depois deram depoimentos emocionados no debate, trouxe uma incômoda sensação de medo, mas também um profundo orgulho de estar ao lado de pessoas que, até hoje, precisam lutar pela democracia.

Voltando à estrutura do filme, a obra apresenta dois pontos centrais. O primeiro, e grande acerto do filme, é o rico resgate de documentos da época exibidos durante os depoimentos. Recortes de jornais, registros de prisão e outros arquivos históricos trazem um contexto preciso da perseguição sofrida por eles e, em especial, da caçada impiedosa do governo a Lamarca.

Cena do filme “O Sertão das Nossas Memórias”. Crédito: Divulgação

O segundo ponto envolve a própria escolha da diretora em estruturar a narrativa como um road movie — recurso que, na prática, não funciona tão bem. Como a própria Lucia mencionou na sessão, a intenção era fugir do modelo tradicional de documentário focado apenas em entrevistas gravadas, mas o resultado final ainda acaba soando como um formato convencional, só que registrado dentro de um carro. A viagem em si não ganha o peso necessário e a rota quase não se integra à narrativa, ganhando verdadeiro significado apenas quando a equipe chega aos destinos, reencontrando os locais e os moradores da região, o que de fato engrandece os relatos.

No fim das contas, O Sertão de Nossas Memórias cumpre um papel fundamental ao fazer o resgate histórico de momentos que jamais deveriam ser esquecidos.

O documentário segue em exibição pelo circuito de festivais, com estreia nos cinemas para 10 de dezembro de 2026.

Nota: 3/5

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