Do mesmo roteirista de A Rede Social, O Outro Lado das Redes acompanha os bastidores da investigação do The Wall Street Journal, conduzida por Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), que desencadeou a série de reportagens chamada “The Facebook Files”. A investigação obteve dados a partir do contato com Frances Haugen (Mikey Madison), cientista de dados que trabalhava no Facebook e ajudou a reunir provas dos impactos negativos da plataforma.

Aaron Sorkin até tenta emular o “frenesi” de A Rede Social, mas entre os dois filmes existe uma diferença primordial: a direção de David Fincher. Ainda assim, Sorkin conduz a obra de forma eficiente e, embora pareça se repetir em alguns momentos, o filme funciona muito bem para demonstrar a dinâmica entre o jornalista e sua fonte.
Se há algo que Sorkin repete entre A Rede Social e O Outro Lado das Redes, é a capacidade de criar um forte sentimento em relação às redes socia. Se em 2010 ele nos fez querer fazer parte do Facebook, em 2026 nos deixa com vontade de excluir todas as nossas contas.
Claro que não tenho a ingenuidade de achar que isso é possível — principalmente para quem está falando tudo isso a partir dessas mesmas redes, o que seria até incoerente. Acho que, apesar do gosto amargo que essa reflexão traz, o que fica é a certeza de que fugir não adianta: cabe a nós assumir um papel responsável dentro delas, mesmo sabendo que, na maioria das vezes, a ferramenta trabalhará contra nós.
Para muita gente, tudo o que o longa conta pode parecer óbvio. E claro que é, mas, em uma sociedade onde 43% dos adultos se informam pelo Facebook, talvez não seja tão óbvio assim. Ao imaginarmos uma sala com 200 pessoas, será mesmo que esse tema não é efetivo para alcançar um grande público? Acredito que este também seja o papel do cinema: levar às telas histórias importantes que precisam ser contadas, mesmo que seja necessário repeti-las diversas vezes.
No elenco, Sorkin conta com pelo menos três nomes excelentes. A vencedora do Oscar Mikey Madison interpreta Frances Haugen, e o que mais me cativa na personagem é a forma como transmite a admiração que sente pela empresa onde trabalha. Ela realmente acredita na missão do Facebook de conectar e dar voz a todos, e Madison nos faz acreditar nisso também. A maneira como ela vai mudando de opinião ao longo do filme ainda carrega o traço de um “quase amor” pelo que a plataforma deveria ser.

Do outro lado, temos a dupla de Jeremys. Jeremy Allen White vive Jeff Horwitz com a mesma força e intensidade que traz em seus outros trabalhos. Ele transmite uma entrega que sempre agrada, combinando perfeitamente com a aura de um jornalista investigativo. Já Jeremy Strong deve dividir mais as opiniões do público. Sua atuação pode parecer caricata no papel desse grande “vilão” egocêntrico que é Mark Zuckerberg. No entanto, ao observarmos o verdadeiro Zuckerberg, é possível perceber o quanto Strong se assemelha a ele, beirando o limiar da imitação. Ainda assim, o resultado se tornou um tanto assustador.

O filme também perpassa momentos bastante tensos desse período, como a pandemia de COVID-19 (citada bem de leve) e o ataque ao Capitólio — que, para nós, inevitavelmente remete aos ataques de 8 de janeiro ao Congresso Nacional, ao STF e ao Palácio do Planalto. Isso cria mais um momento de medo de revivermos algo parecido, em ambos os casos.
O longa chega à Mostra Internacional de Cinema em São Paulo em um momento muito tenso em nosso país, no qual a democracia se vê mais uma vez ameaçada, e os mecanismos expostos por Sorkin trabalham cada vez mais intensamente a favor da desinformação.
O Outro Lado das Redes conseguiu, mesmo dizendo o óbvio, me atingir em lugares de muito medo. O medo do futuro que nos espera. Aaron Sorkin, mesmo sem atingir a excelência absoluta de A Rede Social, consegue entregar essa “quase sequência” em ótima forma.
O longa foi assistido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e tem previsão de estreia nos cinemas do Brasil para 22 de outubro de 2026.
Nota: 4,5/5
