Crítica | Minotauro: O labirinto da omissão

Um casamento sustentado por uma velha imagem pública pode espelhar, com exatidão, o funcionamento de um governo autoritário.

Cena do filme “Minotauro”. Crédito: Divulgação/Imovision

Minotauro, o mais recente trabalho do diretor Andrey Zvyagintsev, opera justamente nessa intersecção. O longa não se limita a ser um drama sobre um casal em crise; trata-se de uma representação de como o Estado oprime sua população e, mais especificamente, de como uma elite conivente sustenta essa engrenagem.

Escolhido para representar a França no Oscar e um dos grandes destaques da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o filme entrega um retrato sufocante da Rússia atualmente.

O filme acompanha Gleb (Dmitriy Mazurov), diretor de uma empresa bem-sucedida que se vê progressivamente encurralado por um cenário político instável. Com a guerra contra a Ucrânia como pano de fundo, Gleb mantém uma vida confortável. Ele tem um filho adolescente gentil e uma esposa que cuida da casa e deles. Tudo exala uma certa normalidade, mas as entrelinhas revelam o abismo: nos pequenos gestos, nota-se que o casal vive de costas um para o outro. É um cotidiano de coisas não ditas, em que ele prefere não fazer perguntas e ela, exausta, já desistiu de tentar falar. Eles operam no automático, até o momento em que o marido descobre que está sendo traído.

Cena do filme “Minotauro”. Crédito: Divulgação/Imovision

Paralelamente ao desmoronamento íntimo, uma pressão externa invade sua bolha. O prefeito local exige que o empresário forneça uma lista com os nomes de seus funcionários para serem enviados ao front. Inicialmente, Gleb resiste à ideia de colocar seus subordinados naquela posição. Aos olhos do público, ele encarna a figura do homem bom, provedor, um pai atencioso e chefe dedicado. A narrativa, então, instiga a dúvida fundamental: se ele é tão exemplar, o que justifica a ruína de seu casamento?

A resposta revela a estrutura central do roteiro. O filme foge do formato clássico de um thriller doméstico onde a tensão apenas escala para o fim da relação. A falência do casamento funciona como um espelho da apatia diante do autoritarismo. O “minotauro” que dá título à obra é a própria opressão que enjaula a sociedade. E, tal como na mitologia em que a besta possui corpo de homem e cabeça de touro, a história escancara que mesmo aqueles que discordam silenciosamente das atrocidades são peças que mantêm o monstro vivo e alimentado.

Cena do filme “Minotauro”. Crédito: Divulgação/Imovision

O grande acerto de Zvyagintsev é focar sua câmera quase exclusivamente dentro da redoma da elite. Há, de forma intencional, pouquíssimas cenas ilustrando a realidade da população que é efetivamente mandada para a guerra. A tragédia das classes mais baixas soa apenas como um ruído de fundo que os mais ricos ignoram ao fechar as janelas de suas casas seguras. Ao invisibilizar o sofrimento direto do povo comum, o diretor aponta o dedo para seu alvo real: a parcela privilegiada que se omite. Não é uma crítica à população como um todo, que já é vítima direta do governo, mas à conivência de quem detém influência e escolhe a inércia para proteger os próprios interesses. O sistema corrupto, que transforma trabalhadores em falsos heróis de guerra, é financiado justamente pelas pessoas que se sentam do lado certo da mesa.

No fim, a aparente bondade de Gleb é apenas uma fachada de proteção governamental. Ele pode fingir que escuta as demandas de sua esposa, mas nunca age de fato. Ela, por sua vez, também não consegue escapar de seu próprio labirinto, acomodada na falsa sensação de segurança que o marido lhe proporciona. É um ciclo de aprisionamento construído pela indiferença, deixando claro que o pior dos monstros não sobrevive apenas pela força imposta, mas pelo silêncio reconfortante daqueles que poderiam tentar detê-lo.

Cena do filme “Minotauro”. Crédito: Divulgação/Imovision

Com um roteiro que escala de forma implacável entre a violência e o descaso, Minotauro é uma ótima surpreendente da 50ª Mostra.

O filme estreia em 03 de dezembro nos cinemas.

Nota: 4/5

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