Exibido na noite de abertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o curta-metragem Sul de Teerã, de Kleber Mendonça Filho, ainda pode ser conferido pelo público ao longo da programação do festival, onde é apresentado nas sessões que antecedem o filme Tigre de Papel.

Em apenas oito minutos de duração, a obra realiza um feito notável: estabelecer uma conexão íntima entre o diretor pernambucano, o cineasta iraniano Jafar Panahi e nós, espectadores.
O curta documental nasceu de forma inusitada, fruto de um convite feito em 2025 por Dennis Lim, diretor artístico do Festival de Cinema de Nova York (NYFF). Inicialmente sem saber que rumo ou forma o projeto tomaria, Kleber construiu uma obra onde a sua assinatura autoral é inconfundível, mesmo se tratando de uma encomenda tão específica, basta assistir aos primeiros segundos para reconhecer a linguagem e a condução que consagraram o cineasta brasileiro.

O coração do filme está na forma terna com que aborda a relação de Panahi com a sétima arte. Kleber nos guia pelas memórias do iraniano, mostrando como o acesso restrito a filmes em sua juventude e as lembranças nostálgicas de suas idas ao cinema forjaram definitivamente o seu olhar como cineasta.
Como um excelente contador de histórias, Kleber atua como um instigador, costurando as falas de Panahi com imagens de Táxi Teerã (2015). É nesse ponto que o curta ganha uma camada extra de significado: o brasileiro faz com que Panahi, um diretor acostumado a conduzir as pessoas para que elas contem suas histórias, assuma o volante da própria narrativa. Desta vez, é ele próprio quem narra esse pequeno fragmento de sua vida.

A sensação que fica ao fim da projeção é de puro fascínio — e o único “problema” do filme é, sem dúvida, a sua brevidade. Ouvir Jafar Panahi sob a condução de Kleber Mendonça Filho é uma experiência tão magnética que poderíamos facilmente continuar ali, imersos nessas histórias de vida e cinema, por muito mais tempo.
Nota: 4,5/5
