Outra Mamãe é uma ótima surpresa. É uma pena, no entanto, que o trailer entregue cenas que seriam muito mais impactantes se fossem descobertas naturalmente durante a trama — como a sequência da cozinha logo no começo.

Dirigida por Rob Savage e estrelada por Jessica Chastain, a obra é uma adaptação do livro “Incidents Around the House”, de Josh Malerman (mesmo autor de Bird Box). A história acompanha Bela, uma criança de oito anos cuja vida familiar é perturbada pela aparição de uma entidade sobrenatural semelhante à própria mãe.
A grande sacada do filme está justamente na personagem Bela (interpretada por Arabella Olivia Clark). A forma como o roteiro constrói, ou melhor, desconstrói, a relação da filha com a mãe é fascinante. Em vez daquele clássico olhar de idolatria infantil aos pais, há uma maturidade na forma como a criança encara essa dinâmica, o que serve perfeitamente aos propósitos da história mais à frente. Isso vale também para como a trama lida com a entidade diante dos adultos, fugindo do velho clichê do “monstro embaixo da cama que só a criança consegue ver”.

No quesito terror, a direção de Rob Savage controla muito bem a transição entre o suspense envolvendo a entidade escondida no escuro e os momentos em que a ameaça precisa se tornar mais real e violenta. Os personagens secundários, por mais subaproveitados que sejam na narrativa, acabam funcionando muito bem para as sequências de mortes.
O grande problema é que o roteiro de Nathan Elston tenta abraçar coisas demais e não encontra tempo para desenvolver tudo em apenas uma hora e meia. Com isso, subtramas que poderiam render bons caminhos acabam sendo deixadas de lado, a exemplo do amigo dos pais e da avó de Bela.

A forma como a história se resolve também incomoda um pouco. Fica aquela sensação de: “Cara, se vocês já sabiam disso, por que não tentaram antes?”. É como assistir a um jogo em que o time sabe o que fazer para ganhar, mas decide agir só no último minuto. Alguém pode argumentar que resolver o problema antes acabaria com o filme, mas não necessariamente. A solução utilizada no clímax poderia ter gerado consequências no meio da história, inclusive ajudando a amarrar as pontas soltas deixadas pelos outros personagens.

Antes de finalizar, é preciso exaltar Jessica Chastain. É um absurdo o talento com que ela consegue interpretar a “mesma” mamãe de formas tão diferentes, trazer nuances muito reais sobre a maternidade para ambas as facetas. Uma atuação impecável.
Porém, Outra Mamãe consegue superar seus percalços de roteiro e entrega um ótimo filme de terror, que definitivamente vale a pena assistir.
