Review | Zona Zero (Colony): os infectados aprendem rápido, mas você não irá se importar

Com boas ideias sobre ciência, vingança e uma perturbadora inteligência coletiva, o novo filme de terror de Sang-Ho Yeon esbarra em um história que não consegue fazer o público se importar com nada.

Invasão Zumbi (2016), de Sang-Ho Yeon, foi uma surpreendente filme do diretor no cinema apocalíptico. Agora, ele retorna às telas, com estreia nos cinemas brasileiros neste fim de semana, em 8 de outubro, com Zona Zero, novamente transformando um surto de infecção em uma história de sobrevivência.

O diretor e roteirista sul-coreano troca o trem por um prédio isolado e aposta em uma experiência científica que dá origem a “zumbis” conectados por uma espécie de inteligência coletiva.

Cena do filme “Zona Zero”. Crédito: Divulgação

Desta vez, estamos diretamente no local original do surto, acompanhando algo que pode sair completamente do controle em questão de minutos. Esqueça os infectados limitados à necessidade básica de morder e comer. Aqui, eles podem aprender. E rápido. Muito rápido.

É justamente aí que o filme encontra sua melhor ideia, e também sua maior frustração.

Para quem acompanha Pluribus, da Apple TV+, a associação é inevitável quando falamos de inteligência coletiva. A relação com The Last of Us também aparece quando o assunto são infectados e a influência de fungos e outros organismos no comportamento dessas criaturas. A diferença é que essas obras transformam a perda da individualidade e ao próprio conceito de humanidade em parte central de suas discussões, enquanto Zona Zero utiliza a inteligência coletiva principalmente para tornar seus infectados mais eficientes e ameaçadores.

A ideia de criar uma espécie de consciência compartilhada entre os contaminados — que se comunicam, aprendem entre si e agem em grupo — ajuda a estabelecer uma lógica própria para essas criaturas e dá ao filme alguma identidade dentro de um gênero já bastante explorado. O problema é que o roteiro, também escrito por Sang-Ho Yeon, parece ter mais ideias do que disposição para desenvolvê-las.

A história começa durante uma conferência científica. Kwon Se-jeong (Jun Ji-hyun), professora de biotecnologia, participa do encontro quando um vírus de rápida mutação é liberado no prédio. O local é isolado pelas autoridades, deixando os sobreviventes presos enquanto a infecção se espalha.

Jun Ji-hyun no filme “Zona Zero”. Crédito: Divulgação

A partir daí, Zona Zero funciona melhor como thriller de sobrevivência. Corredores estreitos, elevadores, salas de lojas de artigos de camping e outros espaços confinados, somados a um inimigo que não se comporta como um zumbi tradicional, criam uma tensão eficiente e movimentam bem a narrativa.

Sang-Ho Yeon também demonstra novamente seu interesse em criar criaturas visualmente marcantes e, nesse aspecto, Zona Zero não decepciona. Quando os personagens percebem que estão enfrentando algo que funciona como um único organismo através de vários corpos, o filme encontra alguns de seus melhores momentos. Só que essa inteligência coletiva merecia muito mais espaço.

O mesmo vale para a origem do vírus. Zona Zero quer falar sobre roubo de ideias, desvalorização profissional e ressentimento dentro do ambiente científico. A experiência nasce de uma motivação de vingança que poderia render uma discussão interessante sobre reconhecimento e sobre os limites éticos da ciência.

Os argumentos são válidos, mas não são desenvolvidos o suficiente para gerar impacto.

Cena do filme “Zona Zero”. Crédito: Divulgação

O roteiro apresenta essas questões e rapidamente corre para a próxima sequência de ação. Enquanto os personagens passam a maior parte do tempo tentando sobreviver e encontrar uma forma de retirar do prédio uma possível vacina, as motivações que deram origem a tudo aquilo vão ficando cada vez mais distantes.

E esse é o grande problema de Zona Zero: você não se importa com ninguém ali.

Não há uma conexão emocional forte o suficiente com os personagens, e a possível ligação entre eles e os acontecimentos também não consegue produzir o impacto necessário. A ameaça funciona. O conceito funciona. A ação funciona. Mas, quando alguém está em perigo, fica difícil sentir que há realmente algo em jogo.

Cena do filme “Zona Zero”. Crédito: Divulgação

Sang-Ho Yeon continua sabendo construir caos e tensão, mas, desta vez, falta ao espetáculo uma consequência emocional.

Zona Zero é melhor quando está correndo do que quando está pensando. É um filme cheio de ideias interessantes que, justamente por não desenvolvê-las o suficiente, termina sendo menos marcante pelo que entrega do que pelo que poderia ter sido.

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