Crítica | Muito Prazer: Jorge Furtado prova por que é mestre em fazer comédia do cotidiana

Jorge Furtado retorna ao seu elemento mais encantador. Depois de sua última produção, o ótimo drama Virgínia e Adelaide (2024), o cineasta volta com uma comédia romântica ambientada em Porto Alegre.

Em Muito Prazer, acompanhamos Rubem (Daniel de Oliveira) após ele descobrir que herdou um estabelecimento de seu tio: um motel abandonado. Ao chegar ao local, Rubem descobre que ali ainda vive Grace (Luisa Arraes), uma ex-funcionária que nao pretende ir embora. Determinados a reabrir, eles percebem que o Motel Pérola já não tem mais a mesma fama, e para sair do vermelho e com a ajuda improvável de Nalva (Samantha Jones), eles criam um plano inusitado: a venda de vídeos feitos por câmeras escondidas nos quartos dos clientes. Independente do quão apropriado isso possa ser — ou não.

Cena do filme “Muito Prazer”. Crédito: Divulgação/Primeiro Plano

Como a mente por trás de sucessos como Meu Tio Matou um Cara, O Homem que Copiava e Saneamento Básico, além de roteirista de Os Normais e Decamerão: A Comédia do Sexo, vamos ser realistas, é quase doloroso tentar resumir a carreira de Jorge citando apenas algumas obras. No entanto, as comédias são, sem dúvida, os pontos altos que fizeram dele um dos cineastas mais aclamados e queridos pelo público. E agora, em Muito Prazer, temos isso de volta em sua plenitude.

A construção de personagens jogados em situações absurdas sempre foi o grande trunfo do diretor. Aqui, a fórmula não é diferente: o enredo flerta com o surreal, mas de forma incisiva, dialogando diretamente com a nossa realidade viciada e a constante violação de privacidade que a tecnologia nos impõe hoje em dia. Em um mundo onde a hiperconectividade e a facilidade da liberdade sexual por vezes tornam as conexões sentimentais raras, Furtado brinca com o tema sem medo de parecer teatral. Ele acerta ao deixar nas mãos de suas personagens femininas todas as decisões cruciais — e, claro, o humor.

Cena do filme “Muito Prazer”. Crédito: Divulgação/Primeiro Plano

Furtado sabe como poucos guiar uma sitcom para as telas grandes, provando mais uma vez seu talento nato para arrancar risos do espectador. Nem todas as tacadas, contudo, funcionam plenamente. O roteiro sofre com alguns excessos de personagens secundários criados apenas para gerar obstáculos aos protagonistas, como o desvio pelo sensacionalismo televisivo. Fica também a sensação de oportunidades perdidas no aproveitamento de outras situações alinhadas à premissa, como a divertida disputa com o motel concorrente da frente e a presença da maravilhosa atriz Drica Moraes, que, nos poucos minutos em que aparece em tela, nos faz querer muito mais do que a duração de uma hora e meia permite.

Cena do filme “Muito Prazer”. Crédito: Divulgação/Primeiro Plano

Ainda assim, o saldo é amplamente positivo, coroado por surpresas inspiradas no elenco. É impossível não destacar a atuação de Samantha Jones: sua Nalva, vendedora em uma loja de TI, brilha intensamente e se consagra como um dos pontos altos do longa. Com um olhar irônico sobre o contemporâneo, Muito Prazer reafirma a vitalidade criativa de um dos maiores nomes do nosso cinema.

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