Crítica | Nosso Segredo: O luto, a casa e a asfixia visual de Grace Passô

“Nosso Segredo”, de Grace Passô, chega aos cinemas nacionais ostentando três Kikitos da 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, incluindo o prêmio de Melhor Filme, e figurando na lista dos quinze longas pré-selecionados para disputar a indicação do país à categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar de 2027. Contudo, eu preciso citar tudo para chamar a sua atenção? Definitivamente, não, pois a força de sua narrativa fala por si só.

Cena do filme “Nosso Segredo”. Crédito: Divulgação/Primeiro Plano

Grace Passô transforma a premissa de uma família negra tentando reconstruir sua rotina após uma perda recente em um ensaio visceral sobre luto e pertencimento. A direção manipula o espaço, utilizando uma câmera que limita intencionalmente a nossa visão. Ao não apresentar um panorama geral, o filme nos coloca frente a frente com personagens sufocados, asfixiando o espectador no mesmo compasso. Não há fuga visual, fazendo com que a própria casa se torne uma extensão física e opressiva do peso do luto, engolindo lentamente cada membro da família que tenta, inutilmente, fugir da realidade.

A trama utiliza as paredes físicas para expor como a dor nessa família é atravessada por camadas profundas de silenciamentos. Trata-se de um ambiente tenso, onde chorar quase soa como algo proibido e a vulnerabilidade precisa ser constantemente escondida sob uma casca de resistência. O verdadeiro acolhimento não se dá através de discursos elaborados, mas na força das ações: no despir-se das armaduras diárias, no ato de purificar o ambiente e na difícil tarefa de curar as feridas para reconstruir tudo em conjunto.

Cena do filme “Nosso Segredo”. Crédito: Divulgação/Primeiro Plano

Toda essa imensa carga emocional nos captura de forma incondicional quando passa a ser filtrada pelo olhar do pequeno Tutu, vivido com enorme sensibilidade pelo jovem Efraim Santos. É através do menino que a narrativa ganha contornos definitivos de urgência e mistério. Enquanto os adultos fogem da angústia, cada um à sua maneira, a criança alimenta algo desconhecido no sótão da casa.

Para amarrar toda essa experiência, é fundamental destacar como a entrega e a união do elenco transformam este potente filme mineiro em um único organismo. Com exceção do pequeno Tutu, que observa tudo com uma inocência profunda e sábia, os outros personagens operam como peças soltas dessa casa que, paradoxalmente, só funcionam quando estão juntas. É nesse ponto que a visão de Grace Passô se consagra: ela transforma a residência em um ser vivo, um outro personagem meticulosamente construído que respira e pulsa a angústia da família que, de algum jeito, apenas atinge seu ápice quando todos estão conectados dentro da casa.

Cena do filme “Nosso Segredo”. Crédito: Divulgação/Primeiro Plano

Quando a obra caminha para o seu fim e adota um tom quase fantasioso, isso não acontece com a intenção superficial de impressionar o espectador. O fantástico surge como uma ferramenta narrativa para explorar e dar forma a um luto que, por natureza, é intangível. As dores que carregamos não são, na maioria das vezes, visíveis a olho nu. Porém, o filme nos deixa uma lição: para curar nossas feridas, precisamos ter a coragem de expô-las. Por mais desconfortável e assustador que seja encarar o desconhecido, é apenas tirando o nosso segredo do sótão que conseguimos, de fato, seguir em frente.

Com toda essa densidade emocional e uma narrativa que ressoa profundamente, “Nosso Segredo” chega aos cinemas neste dia 27 de setembro. É um convite imperdível para que o público também abra as portas de seus próprios sótãos e se deixe atravessar por essa experiência.

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