Com produção do brasileiro Rodrigo Teixeira e da participação de Selton Mello no elenco, La Perra traz reflexões profundas em um local remoto do Chile.
La Perra acompanha a vida de Silvia (Manuela Oyarzún), uma mulher que vive em uma ilha remota no sul do Chile. Levando uma rotina tranquila ao lado de seu marido, ela resolve adotar um filhote. Batizada como Yuri, a cadela logo se torna a alegria da casa. Com um amor e uma ternura imensuráveis, o desejo de Silvia pela maternidade, reprimido há muito tempo, volta com força. No entanto, o desaparecimento da Yuri faz com que ela enfrente um medo que nunca havia deixado para trás.

Silêncio, melancolia e arrependimento: essas são as sensações que permeiam La Perra. Silvia é uma mulher atormentada por uma tragédia do passado, mas, ao encontrar Yuri, parece buscar conexões emocionais que há muito julgava perdidas. Esse encontro revela quem é Silvia, tanto para o público quanto para ela mesma.
Esse é o ponto essencial para a conexão do espectador com o longa. La Perra exige que esse elo ocorra em sincronia com a relação entre a protagonista e o animal, para que a história avance sem perder a atenção de quem assiste.
A diretora Domingas Sotomayor utiliza todos os componentes ao redor da protagonista para evidenciar essa solidão e melancolia sentidas por Silvia. O som do mar, a fotografia e a amplitude dos espaços a deixam cada vez mais isolada, restando apenas os momentos ao lado da Yuri como fonte de alguma felicidade.

Essa construção me transmite uma sensação de pressão; tudo no filme parece obrigar o espectador a sentir exatamente o que se espera. Sotomayor deixa pouco espaço para conclusões próprias, afogando-nos em sua intenção narrativa, mesmo que esta seja belíssima.
E, de fato, é lindo. A fotografia de Simone D’Arcangelo é esplendorosa e se firma como um elemento vital para que o filme funcione junto àqueles que embarcaram na história desde o início. A trilha sonora complementa essa atmosfera melancólica, tornando o conjunto da obra muito forte — o que, para mim, soou intenso demais.
Há, ainda, uma ligação direto com o público brasileiro: além da presença de Selton Mello, a canção Aguenta Coração — eternizada na voz de José Augusto como tema da novela Barriga de Aluguel — funciona como mais uma âncora de aproximação. Embora a intenção principal seja dialogar com o público chileno, notório fã da nossa teledramaturgia, a escolha musical inevitavelmente aquece o nosso coração.

Manuela Oyarzún entrega uma atuação tocante, trabalhando em conjunto com a diretora os silêncios da personagem. Essa abordagem sutil contribui para o propósito do filme de conduzir o público a um estado de introspecção e profunda tristeza.
Nota-se também grande coragem da produção ao lidar com o destino da Yuri. Por mais que o longa siga a obra literária original, baseado no livro da escritora colombiana Pilar Quintana, é sempre delicado trabalhar com animais e com a forma como suas trajetórias são retratadas. A adaptação, no entanto, equilibra-se muito bem: mantém a essência do livro e a transpõe com sutileza e cuidado para a tela.
La Perra é um filme que tenta segurar o espectador pela mão o tempo todo e guiá-lo. Essa condução mais rígida, porém, não o impede de ser uma obra linda e intimista. No fim, tudo dependerá do quanto você está disposto a embarcar nessa jornada emocional.
