Crítica | Leite em Pó: A experiência cinematográfica que desafia o público

O filme da Mostra Competitiva de Longas-metragens Brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado deixa mais dúvidas do que respostas no público — e isso pode ter sido muito bom.

Vinícius de Oliveira no Tapete Vermelho do 54° Festival de Cinema de Gramado. Crédito: Natália Moraes

Depois de alguns filmes mais populares, como Antártida e Chorão: Só Os Loucos Sabem, o longa do diretor Carlos Segundo chega para exigir que o público seja parte da obra, e não apenas espectador. Até porque não será uma escolha: ou você se entrega a ele, ou simplesmente ficará de fora.

Leite em Pó acompanha o jovem Vicente, um músico que mora em Natal (Rio Grande do Norte) com a avó e é completamente obcecado por rock. Quando uma grande perda coloca sua vida no pior cenário possível, ele precisa aprender a se sustentar sozinho. Assim, seu maior sonho é deixado de lado e ele aceita trabalhar de um modo inusitado. Rodando a cidade inteira, ele encontra diferentes pessoas que o ajudam a ampliar sua visão de mundo.

Equipe do filme “Leite em Pó” no palco do Palco dos Festivais. Crédito: Alessandro Moraga

Em um primeiro momento, o filme de Carlos Segundo, escrito em conjunto com Rafael Copel, parecia ser sobre uma jornada clássica de autoconhecimento. Logo percebi estar enganado. Leite em Pó é, acima de tudo, um filme sobre experiências. Não que ao experimentar o mundo o protagonista Vicente (Vinícius de Oliveira) não acabe transformado, afinal, toda experimentação é transformadora, mas não é o óbvio que o longa nos entrega. Nada vem pronto em Leite em Pó, e isso o torna um filme difícil de assistir, exigindo que o espectador crie conexões que não estão escancaradas na tela. É um filme que não vai chegar a quem não for ao seu encontro.

Essa, inclusive, foi a minha primeira impressão ao sair do Palácio dos Festivais em Gramado: a de que ainda não tinha me encontrado com a obra. Assim como o protagonista, eu precisava ir ao encontro do que me estava sendo proposto, me permitir entender e, principalmente, aceitar o que o filme estava criando dentro de mim. A conclusão foi a de que não preciso entender tudo, e sim perceber o que ele me causou. E esse processo continua acontecendo enquanto este texto é escrito, e certamente seguirá reverberando.

A narrativa começa a partir de uma ruptura e Vicente não tem tempo para o desamparo ou para o desespero; ele precisa sobreviver, e a sobrevivência não espera. Assim, é jogado sem nenhum tipo de aviso em realidades e situações para as quais não estava pronto, precisando aceitar que seus sonhos e suas certezas talvez não façam mais parte de sua nova realidade.

Cena do filme “Leite em Pó”. Crédito: Divulgação

Mas a jornada vai além do clichê de “sair da zona de conforto”: ele é confrontado com seu passado e suas vontades. Ele quer ser um cantor de rock, mas vai entender que talvez não seja bom o suficiente. Sua formação vem muito de seu avô, e ele logo descobre que a figura paterna não era quem ele imaginava. É como se tudo desmoronasse.

E essa também foi a sensação que senti ao ver o filme, como se ele não estivesse sendo o que eu esperava. Afinal, quem são essas pessoas que passampelo seu caminho? O que isso tem a ver com o protagonista? Nada fazia sentido, e talvez ainda não faça. Vicente conhece uma fotógrafa que lhe dá o trabalho de vender álbuns de formatura que os clientes nunca buscaram. Mas, ao encontrar os verdadeiros donos das fotos, a realidade se mostra muito diferente: a menina da foto agora é um homem trans; a engenheira virou cabeleireira; a mãe já não tem mais a filha da foto viva. São pessoas completamente transformadas que atraem a atenção de Vicente, fazendo com que ele entenda que o futuro finalmente chegou para ele.

Essas situações também são atiradas ao público. Nem todas eu alcancei e de algumas, inclusive, eu não gostei. Certos pontos ainda não parecem fazer sentido, principalmente uma sequência no final do filme, que me faz ter ressalvas sobre como a história termina. Não digo isso apenas pelo final aberto (o que faz total sentido em uma obra “voltada para fora”), mas a relação que conduz Vicente no desfecho ainda me soa estranha.

Cena do filme “Leite em Pó”. Crédito: Divulgação

Apesar disso, o filme conta com um elenco fortíssimo, trazendo nomes de peso como Antônio Pitanga, Zezita Matos, Rejane Farias e Titina Medeiros, em seu trabalho de despedida, já que nos deixou este ano. Todos têm seus grandes momentos de entrega, mesmo que o filme não seja focado neles. A exceção talvez seja Zezita Matos, que, mesmo saindo de cena cedo, mantém a presença mais marcante durante todo o longa. O centro da narrativa, contudo, é mesmo Vinícius de Oliveira (o eterno Josué de Central do Brasil). Ele entrega uma atuação propositalmente estranha. Há uma cena em que ele tenta cantar – já que quer ser músico – e vai muito mal. Mas, no final das contas, tudo isso parece compor a estranheza que o filme propõe, e, ao abraçar esse desconforto, o ator cresce cada vez mais em cena.

Com toda a certeza, Leite em Pó não vai agradar a todos. Mas, se eu posso deixar uma dica final aqui, é esta: entregue-se. Isso vai garantir que você goste do filme? Não. Mas vai te dar uma chance de vivê-lo. E eu estou adorando ter tido essa chance.

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