O segundo filme da Competição de Longas-metragens Gaúchos no 54º Festival de Cinema de Gramado entrega uma história singela de autoconhecimento, misturando cinema live-action, animação e teatro de bonecos.

Em A História Mais Triste do Mundo, Marco, de 10 anos, é vendido pelos próprios pais a um circo e passa a enfrentar uma sucessão de abandonos e mudanças. Adaptado do livro de Mário Corso, o longa acompanha a trajetória do menino até a cidade grande, onde transforma as dolorosas experiências da infância em amadurecimento.
A mistura de estilos é o que mais encanta na obra. Usar a animação e os bonecos para retratar a vivência no circo foi uma solução excelente e criativa para viabilizar os custos de produção, recriar esse ambiente repleto de animais e situações complexas poderia inviabilizar o projeto caso fosse feito de outra forma. Além disso, o diretor Hique Montanari consegue conferir um ar lúdico e aventuresco às dificuldades e tristezas impostas ao seu protagonista. Isso torna o filme bastante gostoso de assistir, pelo menos no aspecto visual.

Essa estética remete muito a Desventuras em Série. Claro que, guardadas as devidas proporções de produção, esse tom de fantasia envolve o público e o torna parte da história, fazendo com que torçamos para o mocinho superar todas as adversidades.
No entanto, é a partir desse ponto que surge o grande problema do filme: uma narração incessante que, em momento algum, permite que a trama simplesmente aconteça. É compreensível que a voz em off guie a narrativa — afinal, a história está sendo contada sob a perspectiva e as reflexões do protagonista —, mas essa falta de respiro sufoca o espectador, fazendo com que o filme canse rápido demais e perca a magia inicial.
Outro detalhe que acaba não funcionando é a troca de atores durante o salto temporal. Essa mudança no elenco tira um pouco da simpatia que havíamos construído pelo Marco de 10 anos. Isso, somado à chegada à cidade grande, ofusca parte do brilho da produção. A direção até tenta amenizar o impacto ao espalhar personagens da época do circo pela cidade, como se eles ainda fizessem parte da essência daquele Marco. Contudo, até mesmo o conforto que ele encontra no amor romântico para suportar suas mazelas acaba perdendo um pouco da fofura.
A História Mais Triste do Mundo ainda deve encontrar o seu público, provavelmente mais focado no nicho infantojuvenil (ou talvez puramente infantil), sobretudo pela força de sua primeira metade.
O filme ainda não possui data ou informações sobre a sua estreia comercial, permanecendo, por enquanto, apenas no circuito de festivais.
