O cineasta José Eduardo Belmonte traz às telas a história de Márcio Justino e emociona o 54° Festival de Cinema de Gramado, encerrando a 6ª noite do festival como um forte candidato na disputa pelo cobiçado Kikito de Melhor Filme.

Ambientado entre as décadas de 1960 e 1990, o filme acompanha a trajetória de Justino (Christian Malheiros), um jovem da periferia do Rio de Janeiro que encontra em uma poderosa igreja neopentecostal a oportunidade de mudar de vida. Sua rápida ascensão dentro da instituição o leva ao reconhecimento e ao poder, até que uma revelação provoca sua expulsão e desencadeia uma jornada de acerto de contas com o passado.
A trama aborda temas profundos como fé, intolerância, abuso de poder, corrupção, preconceito e manipulação religiosa. Cerca de quinze anos depois do seu auge, ele decide confrontar o passado. Em busca de respostas para entender as escolhas que moldaram seu destino, Justino faz de tudo para se redimir antes que seja tarde demais.

Histórias de ascensão e queda não são incomuns no cinema. Belmonte sabe muito bem disso e utiliza diversas referências para construir sua ambientação e narrativa. Seu grande mérito, contudo, é fazer com que a obra não pareça uma cópia de nada específico. Existe uma identidade própria aqui, que não se apoia apenas na direção, mas pulsa no protagonista, encarnado brilhantemente por Christian Malheiros.
O longa tinha tudo para cair no maniqueísmo: apresenta uma igreja intrinsecamente ligada a escândalos reais no Brasil e traz em seu representante um antagonista odiável. Contudo, em nenhum momento a trama se rende a arquétipos vilanescos. A construção do Pastor Azevedo, interpretado por Caio Blat, era o ponto mais arriscado para essa armadilha. Em vez disso, o roteiro entrega um personagem detestável, mas cuja maldade não é gratuita ou simplória. É uma figura profunda e, em um grande acerto da direção, seus atos nunca invalidam a essência da fé. O problema, o filme deixa claro, nunca é a fé em si.
Isso ocorre porque Belmonte encontra o equilíbrio perfeito ao adaptar o livro que baseia a história. Por mais que exista uma denúncia contundente contra a instituição, ela serve de pano de fundo enquanto o roteiro explora as dores e a força motriz de Justino. O foco não é a igreja, tampouco a religião evangélica, mas sim o ser humano que buscou um caminho melhor através da crença. Ele acabou tragado por uma organização que o explorou — e explorou sua fé —, elevando-o ao topo apenas para, em seguida, empurrá-lo ladeira abaixo.

Embora Justino tenha sido usado, o filme não “passa pano” para seus erros. Ele foi um agente ativo nos desvios de conduta que marcaram sua vida, e o roteiro dá espaço para que isso fique evidente. Simultaneamente, a obra consegue despertar a simpatia do espectador por esse homem, evidenciando que ele é produto de uma sociedade que o empurrou para a margem desde cedo, sem lhe dar as ferramentas necessárias para lidar com o poder.
Além da religiosidade, o longa escancara questões sociais urgentes. Justino é um homem preto e periférico que, ao tentar melhorar de vida, é constantemente rechaçado pela sociedade, encontrando na religião a sua única saída. A narrativa também mergulha nos desejos íntimos do protagonista, os quais ele mesmo nunca pôde explorar livremente.
Toda a temática queer que envolve o personagem entra em rota de colisão direta com os dogmas religiosos. Ele não consegue aceitar sua sexualidade, mesmo quando cede a ela, pois foi ensinado a reafirmar sua masculinidade a todo instante, uma pressão sufocante dentro de uma congregação que o obrigava a combater a própria essência.
No entanto, tudo isso só funciona tão bem por um motivo central: Christian Malheiros. O ator entrega um carisma único, o que garante a conexão emocional com a história desde a primeira cena, até mesmo para o público que pudesse ter ressalvas com a temática. Christian brilha ao compor um personagem dono de uma inocência latente, mas que está disposto a enfrentar o mundo para alcançar seus objetivos. Sua entrega corporal é fantástica, transitando perfeitamente pelas diferentes fases de Justino, da devoção cega à dor do abandono. Em tela, ele não parece estar interpretando, mas vivendo cada ferida.

Com a trama se estendendo dos anos 1960 aos 1990, a direção opta por não sobrecarregar a estética para datar essas épocas. Em vez disso, situa o espectador no tempo e no espaço através de letreiros, conferindo um ar episódico a cada fase. Essa escolha flerta com o incômodo, mas ganha um sentido totalmente novo e genial perto do desfecho. É um dos pontos altos da produção, não apenas pela guinada narrativa, mas também pela entrada de Onna Silva. Mesmo surgindo no terço final, ela se consagra como um dos grandes destaques do elenco.

Outra força feminina é responsável por uma das sequências mais arrebatadoras do longa: Larissa Nunes, no papel de Graça, esposa de Justino, protagoniza junto a Malheiros uma cena de tirar o fôlego.
Esteticamente, a obra flerta com uma narrativa mais comercial. A direção de arte e a fotografia são tão polidas que chegam a beirar o exagero, criando a falsa sensação de que, não importa a gravidade da situação, o herói sempre sairá ileso. Falta, talvez, um pouco mais de “sujeira” e aspereza. Contudo, Belmonte consegue retomar as rédeas a tempo, deixando claro que, mesmo escapando, Justino nunca sai genuinamente vencedor.
Justino: Nos Bastidores do Reino é muito mais do que um bom título; torna-se uma obra essencial por retratar o Brasil. O longa nos convida a conhecer e refletir sobre as contradições do nosso país, dando voz e luz a um homem preto e periférico, em um cenário nacional que ainda invisibiliza essas trajetórias.
O filme, que brilha no circuito de festivais, ainda não possui data confirmada para estreia no circuito comercial.
