Baseado no livro “Se não eu, quem vai fazer você feliz? Minha história de amor com Chorão”, escrito pela viúva do cantor, Graziela Gonçalves, o longa vem para contar a trajetória de Chorão a partir do ponto de vista de Grazi. Chorão: Só Os Loucos Sabem aborda fatos da vida do artista, desde a adolescência em Santos até a sua morte trágica.

Os diretores Hugo Prata e Felipe Novaes falaram em coletiva, após a exibição do filme na mostra competitiva do 54º Festival de Cinema de Gramado (17), que a ideia do longa era relatar essa história de amor entre Chorão e sua esposa, e a importância dela ao longo da vida do cantor. Mas o resultado que vemos acaba indo muito além disso, na medida em que existe mais história rondando o casal do que o filme consegue suportar.
Chorão foi um dos maiores e mais importantes ícones da música brasileira. E Alexandre Magno Abrão era muito mais que isso. Genial, com um jeito único de se comunicar com o seu público, mas, ao mesmo tempo, complexo, complicado e lidando com muitos demônios que nunca conseguiu conter. O que acontece é que o filme se perde entre esses dois caras. E, nessa indecisão entre o homem e o artista, a obra tenta contar demais: falta tempo, falta espaço e falta peso.
“Chorão era um caos para tudo que girava em torno dele, mas o filme não precisava ser.”
Além de sua história com Graziela, a história quer abordar sua relação com o amigo Champignon, o começo da banda, o sucesso, o filho, a mãe, o pai, a violência, os traumas, as drogas, a depressão, a morte e inúmeras outras coisas.

É então que Chorão conhece Grazi; ela pede que ele crie canções em português (já que eles cantavam em inglês) e o apresenta ao Planet Hemp. Na cena seguinte, ele conhece Rick Bonadio, o produtor musical, apresenta seu primeiro sucesso e a banda estoura. Tudo isso em três cenas. Depois, Chorão conhece Champignon, que tem apenas 13 anos, entra para a banda, torna-se importante e o sucesso vem novamente. Mais três cenas. E isso acontece com absolutamente toda a história sobre o Chorão que o filme tenta contar.
O longa é conduzido pela trilha sonora do Charlie Brown Jr. e, obviamente, isso embala muito bem a trama. Afinal, como não se sentir bem passando quase duas horas escutando a banda? É uma coletânea de sucessos que segura de forma competente a narrativa criada por Hugo Prata e Felipe Novaes. Dá para sentir que eles realmente conhecem as músicas, possuem uma relação íntima com a banda, e isso faz com que a parte musical se encaixe. São as músicas certas, no momento certo, relacionadas à história certa.
Os diretores também explicaram que, para eles, a melhor escolha foi usar o playback com a música original em vez de ter um ator performando Chorão, mesmo que José Loreto tenha relatado aqui em Gramado o seu árduo trabalho de preparação para viver o cantor, inclusive nas partes cantadas. A ideia dos cineastas era criar uma história ao redor daquela fonografia, e não tentar emulá-la.

Sempre vou preferir uma interpretação de algo em vez de um playback, mas entendo que os fãs mais intensos da banda talvez se agradem mais com essa ideia. Alguém pode cantar como o Chorão? Claro que não. Mas, para o filme, isso realmente seria necessário? Também acho que não. Sempre me vem à mente o filme Rocketman, onde Taron Egerton entrega uma interpretação brilhante vivendo o lendário Elton John: é perfeita sem precisar ser idêntica.
José Loreto tem seus momentos. Dá para notar que existe um trabalho real para tentar encontrar o Chorão para o filme, mas, em alguns instantes, sinto que há um esforço exagerado para chegar lá. O ponto aqui é o mesmo da parte musical: ele não precisava ser igual ao Chorão, porque quanto mais ele tenta, mais distante fica. O cantor era muito natural; não tenho a lembrança de um Chorão que forçasse atitudes ou que fizesse parecer que aquele cara era apenas o seu personagem artístico. Contudo, foi isso que senti em alguns momentos do longa, como se em casa ele fosse o Alexandre e no Charlie Brown Jr. ele fosse o Chorão, sendo que essa diferença nunca existiu.
Porém, mesmo assim, ainda é José Loreto quem carrega o filme. Sua dupla com Nanda Marques funciona muito bem. Isso acontece graças ao fato de os dois serem extremamente carismáticos. É fácil torcer por eles e, mesmo sabendo como essa história vai terminar, dá vontade de que o desfecho fosse diferente. Nanda é magnética; a interpretação dela faz com que você acredite na importância que Graziela teve na vida de Chorão, justificando o encanto que ele sentiu por ela. É muito fácil “comprar” essa parte da história.

Durante a coletiva em Gramado, um jornalista disse não conhecer Chorão a fundo, nem acompanhar seu gênero musical, mas que havia gostado de conhecê-lo agora. O pensamento que me acompanhou foi o de saber que o filme vai deixar essa falsa sensação. Ninguém vai realmente conhecer Chorão a partir daqui.
De qualquer forma, Chorão: Só Os Loucos Sabem vai cativar o público com toda a certeza. O filme tem o seu apelo emocional e conta com boas chances de alcançar o sucesso ao chegar às salas de cinema em março de 2027. Esse texto foi escrito ao som de Charlie Brown Jr. — esse é o impacto que ele sempre terá.
