Crítica | Pele de Rinoceronte: História de Ângela Diniz volta a Gramado sem a força que precisava

Segundo filme da Mostra Competitiva de Longas-metragens Brasileiros (16), Pele de Rinoceronte, de Marcello Ludwig Maia, aborda o feminicídio a partir do assassinato de Ângela Diniz, mas não consegue trazer nenhum novo olhar sobre o tema, tampouco sobre o caso.

Naruna Costa e Débora Falabella no Tapete Vermelho do 54° Festival de Cinemas de Gramado. Crédito: Natália Moraes

Pele de Rinoceronte é um drama inspirado no crime brutal que culminou no assassinato de Ângela Diniz (Camila Lucciola), um caso que chocou o Brasil em 1976. Na trama, os caminhos de uma jornalista (Débora Falabella), de uma advogada (Naruna Costa) e da própria Ângela se cruzam por conta da tragédia. Ao apresentar diferentes pontos de vista sobre o mesmo acontecimento, o filme tenta ultrapassar a superfície da investigação para retratar problemas estruturais, como o machismo e a desigualdade social. Mais do que recontar o crime, a obra examina as consequências do feminicídio para as mulheres envolvidas e reflete sobre uma realidade que continua tragicamente presente décadas depois.

O diretor Marcello Ludwig Maia afirmou em coletiva de imprensa, após a exibição do filme em Gramado, que sua intenção não era tratar o tema mostrando a violência de forma gráfica, mas sim priorizar a discussão em vez da exibição. E ele realmente cumpriu essa premissa, sendo este, talvez, um dos poucos êxitos do longa.

Vale contextualizar que o audiovisual brasileiro tem revisitado a trágica história da socialite mineira com bastante frequência nos últimos anos. Em 2023, o longa Ângela, dirigido por Hugo Prata e protagonizado por Isis Valverde, também fez sua estreia no Festival de Gramado e acabou não alcançando a recepção esperada. O caso voltou aos holofotes mais uma vez com o lançamento, no final de 2025, da minissérie Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, da HBO, protagonizada por Marjorie Estiano e baseada no aclamado podcast Praia dos Ossos. Com tantas produções dissecando o mesmo episódio em um curto espaço de tempo, é natural que qualquer nova obra sobre o assunto precise encontrar outros olhares — Pele de Rinoceronte tenta, mas infelizmente, não consegue carregar o peso de uma história tão marcante

Cena do filme “Pele de Rinoceronte”. Crédito: Divulgação

Por mais que eu concorde com essa abordagem, o roteiro de Josefina Trotta não consegue propor grandes reflexões sobre o tema além de concluir que não existem motivos para a violência contra a mulher e que o feminicídio tem origem apenas no ódio. O filme, inclusive, soa extremamente didático ao dizer isso.

A personagem de Naruna Costa, uma advogada que se prepara para o caso do assassinato de Ângela Diniz, tem uma cena inteira dedicada a conceituar o feminicídio. No entanto, o discurso parece tão ensaiado que soa como se ela estivesse lendo a definição em um dicionário – o diretor afirmando que era exatamente essa intenção. Mesmo com a boa atuação da atriz, o roteiro não transmite paixão e, neste aspecto, não entrega nenhum olhar além do básico sobre o assunto.

Naruna Costa no Tapete Vermelho do 54° Festival de Cinemas de Gramado. Crédito: Natália Moraes

O outro ponto central do longa gira em torno de Débora Falabella. Sua personagem é uma jornalista que acaba investigando o crime após perceber que também vive um relacionamento abusivo. Aqui, poderíamos ter o grande núcleo emocional do filme, já que a intenção do diretor não era focar necessariamente no crime em si, mas no que ele significa. Helena é transformada logo na primeira cena com seu namorado e chefe do jornal, Mauro (Augusto Madeira), ao sofrer uma violência. Essa transformação, porém, acontece cedo demais, especialmente por ocorrer antes do seu contato formal com o caso de Ângela Diniz.

A partir disso, Helena vai até o local do crime e passa a ter contato com as memórias de Ângela. Contudo, a narrativa também não constrói nada além do que já estava estabelecido desde o começo. A falta de interação entre as personagens de Débora e Naruna gera uma forte sensação de desperdício; um cruzamento entre as duas poderia aprofundar as discussões pretendidas pela direção.

Ainda na praia onde o crime ocorreu, o roteiro cria alguns flashbacks do que seria a relação de Ângela com seu algoz, mesmo que em nenhum momento os nomeie, em uma tentativa de demonstrar que aquilo pode acontecer com qualquer mulher, e não é um caso isolado. Novamente, falta objetividade: a mensagem da cena já estava clara desde o princípio, e acaba não acrescentando peso real ao desenvolvimento do drama.

Débora Falabella e Naruna Costa entregam atuações fortes, e a emoção das duas é nítida na construção das personagens. Camila Lucciola interpreta Ângela Diniz e acaba ficando com a personagem mais prejudicada entre as três mulheres principais. Augusto Madeira é usado como escada para a história de Helena, mas não vai além disso — e nem precisava. O mesmo vale para Irandhir Santos, embora ele tenha um pouco mais a dizer e seja mais ativo na parceria com Naruna Costa.

Pele de Rinoceronte trata de um tema sempre urgente de ser discutido, mas que poderia ter sido abordado até mesmo sem a menção a Ângela Diniz. No fim das contas, parece um filme preso no tempo e em convenções sobre como expor sua narrativa. Talvez, se tivesse sido conduzido e dirigido por uma mulher, a obra ganhasse a personalidade e a aproximação genuína que a história exigia.

O filme tem previsão para chegar aos cinemas em março de 2027.

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