Crítica | ANTÁRTIDA: A superprodução com Marina Ruy Barbosa que prometeu tudo, mas esconde uma falha que ninguém esperava

A promessa de inovação na produção que não acompanha a história.

Abordando um tema sempre atual, o longa escrito por Claudia Jouvin e dirigido por Bruno Safadi não consegue sair do básico e do clichê, falhando em dar voz real para a personagem que deveria ser a principal.

Vale destacar que Antártida teve uma sessão especial hors-concours marcando a abertura do 54º Festival de Cinema de Gramado nesta sexta-feira (14/8). Passam pelo tapete vermelho os atores Adélio Lima, Gero Camilo, Leandra Leal, Marina Ruy Barbosa, João Vitor Silva, Lázaro Ramos e Renan Monteiro. O longa tem estreia marcada nos cinemas para o dia 17 de setembro.

Elenco de ANTÁRTIDA no tapete vermelho do 54° Festival de Cinema de Gramado. Crédito: Natália Moraes

Em uma base brasileira isolada na Antártida, cientistas e militares se preparam para enfrentar um clim extremo. O ambiente hostil, no entanto, é apenas o começo dos desafios. Na primeira noite, um crime brutal contra Inês (Marina Ruy Barbosa) abala a rotina e transforma todos os homens em suspeitos, incluindo o Comandante Barros (Antônio Calloni) e o Capitão Vicente (Lázaro Ramos).

Diante do medo e da desconfiança crescentes, a subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) assume a liderança da investigação, contando com o apoio das outras mulheres da base, como Marina (Leandra Leal) e Rose (Mariana Sena). Em meio ao isolamento, à tensão e às incertezas, elas precisam buscar respostas e proteger umas às outras antes que o rigor do inverno seja o menor dos perigos.

A primeira coisa que logo desperta a curiosidade no longa é o fato de a história se passar na Antártida, mas ter sido gravada nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro. E talvez esse seja o ponto alto do filme. O uso da tecnologia Unreal é muito bem-vindo; os cenários conseguem trazer a imersão e passar a sensação de isolamento que a obra pede, mesmo que grande parte dela aconteça dentro da estação de pesquisa.

Mas, quando vamos para a história, falta muito. Falar de abuso em 2026 abre inúmeras formas de abordagem, mas o roteiro de Claudia Jouvin se prende apenas a um fator principal: o de que todos os homens são potenciais agressores. O que é realmente verdade, mas é muito pouco para tratar do tema em profundidade. Isso acontece porque o longa não dá espaço para explorar as nuances dos personagens. Dessa forma, o filme se torna repetitivo e monotemático, o que afeta principalmente a jornada da subcomandante Elisabeth que não consegue encontrar muito o que explorar em sua investigação.

O filme até pincela a história de outros personagens, como a relação entre Marina e Vicente, que aborda um outro tipo de abuso. Porém, mesmo sendo uma das subtramas mais interessantes e contando com as melhores atuações da obra, tudo se resolve de forma apressada com apenas uma frase no final.

Leandra Leal no filme ANTÁRTIDA. Crédito: Divulgação/Paris Filmes

O elenco estrelado é outro ponto alto da produção. Mesmo sendo prejudicados, às vezes, por um roteiro que não se interessa por eles. A personagem que mais sente isso é, justamente, aquela que deveria estar no centro da trama. Marina Ruy Barbosa vive uma Inês que transmite um sofrimento legítimo, mas que se perde em meio a gritos de desespero que não aprofundam suas dores. O ignora o fato de ela ser uma cientista desrespeitada naquele ambiente, ou o peso de sofrer a dor de uma violência sem ter memórias claras do ocorrido. Essa amnésia deveria levá-la a desconfiar de todos, mas esse medo potencial também não fica evidente na tela.

Bruno Safadi busca trazer um ambiente claustrofóbico para o filme, num estilo Alien: O Oitavo Passageiro, algo que ele citou em coletiva de imprensa com equipe e elenco, ser um pedido da própria Andrea Beltrão. A atriz, inclusive, buscou inspiração na Tenente Ellen Ripley para construir sua personagem, e ambos têm êxito nessa atmosfera. É aqui que o ambiente da Antártida se justifica, já que essas mulheres acabam presas junto a um monstro (ou vários) desta vez muito mais real que o alienígena de Ridley Scott.

Andrea Beltrão no filme ANTÁRTIDA. Crédito: Divulgação/Paris Filmes

Antártida é um filme que se apoia na tecnologia e abordando um tema necessário, mas que, ao fim, deixa a sensação de decepção. Essa impressão é reforçada pela forma como a situação é resolvida no desfecho. É um filme que promete muito mais do que a história acaba entregando.

Deixe um comentário