Primeiro filme da Mostra Competitiva de Longas-Metragens Brasileiros, Feito Pipa teve sua apresentação para o público no 54º Festival de Cinema de Gramado e pode ser resumido em uma palavra: emocionante. Ao final da sessão, equipe e elenco foram aplaudidos com entusiasmo, em meio a muitas lágrimas.

Gugu (Yuri Gomes) é um menino de quase 12 anos que sonha em se tornar jogador de futebol. Criado de forma livre e afetuosa pela avó, Dilma (Teca Pereira), uma professora aposentada, ele vive às margens da barragem de Araújo Lima, no interior do Ceará. Quando a saúde da avó começa a se fragilizar, Gugu passa a esconder a situação, com medo de ser separado dela e forçado a morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos), com quem mantém uma relação marcada por conflitos e afetos não ditos.

A cena de abertura já nos apresenta a um encantador Yuri Gomes na pele de Gugu. Ao se arrumar para uma partida de futebol, o menino divide suas atenções entre o glamour das pinturas e adereços e a tradição do meião com a chuteira. Yuri apresenta uma força descomunal em sua atuação e vai encantando o público a cada nova cena. Gugu tem orgulho de quem ele é e, mesmo lidando com a repressão do pai, defende-se bravamente daqueles que se incomodam com a sua existência.
Lázaro Ramos dá vida a Batista, e tanto o ator quanto o roteiro criam um personagem que foge dos clichês, abraçando a naturalidade. Batista não se resume a um homem homofóbico, mas sim a um pai que também sofre por não entender o filho. Ele é, sim, um homem enraizado em seus preconceitos, a ponto de talvez nunca conseguir abandoná-los por completo, mas que, ao mesmo tempo, mostra-se um ótimo pai para sua outra filha.

A forma como o roteiro de André Araújo constrói pai e filho também é fascinante. Enquanto Gugu é um menino queer que adora futebol, Batista é um homem conservador que adora cozinhar e não gosta do esporte. É como se houvesse uma subversão inteligente das ideias preconcebidas que as pessoas normalmente teriam desses arquétipos.
Allan Deberton (o brilhante diretor de Pacarrete, um filme que me encanta) entrega em Feito Pipa outra obra extremamente carinhosa. Mesmo quando a trama quase beira o clichê em alguns diálogos, a direção faz com que a gente simplesmente ame cada nova cena. A condução é delicada em todos os aspectos: a direção de arte, assinada por Dayse Barreto, e a fotografia de Luciana Baseggio se abraçam para transformar os cenários em verdadeiros locais de afeto, desde a casa onde Gugu mora com a avó até o campo de terra onde o garoto persegue o sonho de ser jogador, enquanto enfrenta o preconceito. A trilha sonora de João Vitor Barroso envelopa todo esse carinho que o filme nos entrega.
Mas o grande coração do filme pulsa na relação entre Gugu e Dilma. A avó é o porto seguro do menino, sendo também a sua maior fonte de força para ter a segurança de ser quem ele é. Uma mulher forte, que criou o neto após a perda da filha, e que esbanja vida. Teca Pereira atinge o auge no longa: além de estar no centro afetuoso, ela ancora o centro do drama. É duro assistir a essa mulher tão forte e vívida ir perdendo a memória em decorrência do Alzheimer.

Nesse momento, a inversão de papéis entre avó e neto cria uma tensão palpável e um profundo medo do futuro, que atinge em cheio tanto o protagonista quanto o espectador. Gugu tenta a todo custo cuidar e proteger a avó, movido pelo amor à pessoa que mais venera, mas também pelo pavor de ficar sozinho e ser obrigado a viver com o pai. O menino se vê forçado a buscar uma maturidade que colide, inevitavelmente, com a inocência dos seus parcos 11 anos.
“Feito Pipa é uma história de amor e memória, impulsionada pela habilidade ímpar de Allan Deberton em conectar o público. É impossível sair do cinema sem ser tocado e transformado por essa narrativa que, além de tudo, fala sobre coragem. Coragem de ser, coragem de resistir e a coragem de fazer um filme tão lindo e importante.”
Feito Pipa estreia no dia 5 de novembro nos cinemas de todo o Brasil e já desponta, merecidamente, como um dos melhores filmes do ano.
