​Review | Bouchra: A vida adulta em 3D! A animação sobre vulnerabilidade que encanta sem precisar de fantasia

Animações com tom adulto e realista, que não dependem da fantasia para contar suas histórias, às vezes são muito difíceis de encontrar. É ainda mais raro esbarrar em uma obra que nos envolva com tanta facilidade na história, aparentemente comum, de uma cineasta tentando finalizar um filme sobre sua própria vida.

Em Bouchra, no entanto, nossa protagonista é uma coiote lésbica que vive em Nova York e mantém contato por telefone com sua mãe em Casablanca, no Marrocos. É através dessas interações que, aos poucos, descobrimos os dramas e medos que realmente habitam a mente da personagem. Trata-se de uma história de perdão: não apenas o perdão dela ou da mãe, mas o perdão pelo próprio caminho que as afastou por tantos anos e como isso as transformou. Não há rancor, mas há dor.

Cena do filme “Bouchra”. Crédito: Divulgação/Olhar de Cinemas

Tudo isso ganha vida na tela por meio de uma belíssima animação 3D com uma forte veia semiautobiografica. A obra é inspirada na vida de uma das diretoras do longa, Meriem Bennani, que divide com Orian Barki essa imersão na criação de um universo antropomórfico fascinante.

Na noite fria de 6 de junho, durante a 15ª edição do Olhar de Cinema em Curitiba, tivemos a oportunidade de conferir essa história. Bouchra, uma coprodução ítalo-marroquina-americana, foi exibida na Mostra Competitiva Internacional.

Nessa história acompanhamos a jornada de Bouchra para enfrentar aquilo que a distanciou da mãe: o medo primordial da rejeição, intensificado pela preocupação de como sua sexualidade impacta esse relacionamento. Bouchra anseia por seguir em frente com sua vida e carreira, mas é atormentada por dúvidas, convencida de que a única saída é usar a própria arte para confrontar as tensões mal resolvidas.

Cena do filme “Bouchra”. Crédito: Divulgação/Olhar de Cinemas

Eu já estava empolgada desde o lançamento do trailer, atraída pela beleza técnica que mistura a animação 3D com imagens reais compondo o fundo das cenas. A cada nova camada da história de Bouchra e sua mãe, Aicha, somos cativados pelo intimismo da trama. Seja acompanhando o pavor que a protagonista tem de elevadores, suas amizades, ou as reflexões sobre antigos e novos amores, a forma como ela relembra o passado para reconstruir sua história no presente é envolvente.

Trazendo ainda mais autenticidade para a obra, a própria diretora, Meriem Bennani, dá voz à protagonista, enquanto familiares e amigos também emprestam suas vozes para remontar essa história tão particular e afetiva.

Há uma sacada brilhante na escolha do animal. O fato de a protagonista ser uma coiote traz um peso simbólico importante para a relação retratada: diferente dos lobos, os coiotes não vivem necessariamente em bandos. Eles são seres incrivelmente adaptáveis, mas que, ainda assim, podem desenvolver ligações familiares profundas. É nítido o quanto Bouchra ama sua mãe e familiares, mas ela sabe muito bem o quanto é essencial — e, às vezes, doloroso — manter certos distanciamentos.

Cena do filme “Bouchra”. Crédito: Divulgação/Olhar de Cinemas

A história recusa demarcações rígidas. Nunca sabemos ao certo onde termina a vida real e começam as encenações ou as meras lembranças de Bouchra. Assim como a própria vida da protagonista, a narrativa é fluida e intercalada, dispensando distinções óbvias. As cenas de sexo dela com outras personagens, são realmente bonitas e sensuais, mostrando o quanto o corpo explode em desejo mesmo quando tentamos evitá-lo – independente do motivo.

É um olhar conduzido com muito carinho, passando longe de ser invasivo ou excessivamente expositivo. As diretoras confiam no espectador, fazendo com que compreendamos, a todo momento, o peso das situações que Bouchra enfrenta, como um relacionamento fracassado batendo à sua porta novamente. São eventos que a distanciam de possibilidades reais de recomeço e a mantêm presa a conversas truncadas e incompletas com a mãe.

Bouchra é, no fim das contas, um belo ensaio animado sobre a vulnerabilidade e a relação entre mãe e filha.


Bouchra foi exibido durante a programação da 15ª edição do Olhar de Cinema de Curitiba. O longa não possui previsão de estreia comercial nos cinemas no Brasil.

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