Quando pensamos em Alagoas, em suas paisagens e população maravilhosas, é fácil imaginar como tudo isso poderia ser transportado para filmes incríveis. Mas foi apenas há poucos anos que essa percepção começou a se tornar realidade em comparação ao resto do Brasil.
Um marco desse incentivo cultural regional ocorreu na noite deste 6 de junho, com a estreia mundial do primeiro longa-metragem de ficção alagoano no 15º Olhar de Cinema na Mostra Competitiva Brasileira. “Olhe Para Mim”, obra do cineasta Rafhael Barbosa, celebrou esse momento histórico com a presença de boa parte da equipe na sessão especial.

A produção é uma fantasia queer que mergulha nos mitos locais, especialmente na lenda da coruja rasga-mortalha. Atravessando paisagens intimamente ligadas à natureza, esse road movie explora o medo profundo da morte e os mistérios de uma jornada lírica e alegórica. No caminho, fantasmas, monstros e entidades se materializam como representações dos medos mais profundos dos personagens, forças que acabam por uni-los em sua jornada.

A história acompanha o protagonista Marcelo, vivido por Ulisses Arthur, que sofre profundamente com o desaparecimento da mãe há 10 anos e mantém uma relação distante com o pai, apesar do afeto existente. Em seu caminho, ele cruza com Sandra, interpretada por Rejane Faria — que também esteve na abertura do festival com “Yellow Cake”.
Sandra é uma mãe que realiza trabalhos com o mundo espiritual para quem pode pagar, ao mesmo tempo em que cuida de seu filho, Ivan (Luciano Pedro Jr.), um jovem tão sensível quanto ela e que carrega uma maldição. É nesse contexto que Marcelo e Ivan se encontram, conectam-se e partem juntos para tentar entender para onde, afinal de contas, estão indo nesta vida.

A dinâmica do elenco guia o coração da obra. O encantador ator mirim Hugo Ramires dá vida ao meio-irmão Kim, representando a pureza e o pavor do desconhecido. O medo que Kim tem de histórias de horror contrasta frontalmente com a ligação que Marcelo tem com a morte. Marcelo não teme o fim; seu verdadeiro pavor é o de não ter mais o carinho materno que um dia foi seu porto seguro.
Em tela, Ulisses e Luciano são complementos íntimos. A conexão dos personagens transborda, assim como é palpável o amor de Sandra pelo filho — um amor que se expande para além dele. Rejane acaba não tendo tanto destaque em tela, mas isso ocorre porque a dupla principal e o pequeno Hugo brilham intensamente em suas aparições, em perfeita sintonia com as deslumbrantes paisagens onde o filme foi rodado.
A poesia da direção e o profundo amor de Rafhael Barbosa pelo cinema de terror deram a base perfeita para que ele desenvolvesse essa história. Isso se reflete na maquiagem, no figurino e nos elementos fantásticos que surgem no filme. O roteiro constrói uma jornada afetuosa em busca de pertencimento.

O longa nos lembra que um lar não precisa ser, necessariamente, uma estrutura física e imutável, mas sim qualquer lugar preenchido de amor e acolhimento pra você renascer constantemente sem medo.
“Olhe Para Mim” tem previsão de chegar aos cinemas no segundo semestre de 2026.
