Maxita, documentário conduzido pelas diretoras Mariana Machado e Ana Maria Machado, é uma obra que se recusa a reduzir a questão indígena a um mero debate cartográfico. Não se trata apenas sobre demarcar a terra, mas sim sobre o direito fundamental de protegê-la e de existir nela sem a ameaça constante da mineração. O filme escancara a realidade de uma Amazônia onde o garimpo mata indígenas e contamina o meio ambiente de forma sistemática, e conecta essa dor de maneira brilhante com outro ponto do mapa brasileiro.
O documentário Maxita teve sua exibição no dia 07 de junho, integrando a Mostra Competitiva de Longas-Metragens Brasileiros da 15ª edição do festival Olhar de Cinema, que acontece em Curitiba até o dia 13 de junho

O grande mérito das cineastas, que passaram sete anos construindo essa narrativa, é traçar um paralelo devastador entre o que acontece na Amazônia e a história de seu próprio estado natal, Minas Gerais. A jornada de Davi Kopenawa, xamã Yanomami e uma das principais vozes indígenas do Brasil, o leva até Brumadinho, palco da trágica ruptura da barragem em 2019. Essa travessia evidencia que a ganância extrativista opera sob a mesma lógica de morte, seja na forma do garimpo ilegal na floresta ou das megamineradoras “legalizadas” no sudeste.
A narrativa ganha um contorno político pungente quando Davi repassa a história da exploração de suas terras. O documentário não hesita em apontar o retrocesso brutal ocorrido durante o governo Bolsonaro, que não apenas ignorou as demarcações, mas incentivou ativamente a exploração da Amazônia e o desrespeito aos povos originários. Foi um golpe duro em uma luta que, há décadas, avança a passos lentos. Com as eleições de 2022 e a mudança de presidente, houve o que se pode chamar de um “respiro”. Contudo, Maxita é contundente ao afirmar que nem tudo está resolvido, nem perto disso. A ferida continua aberta, e a luta exige vigilância constante.

O relato de Davi Kopenawa ganha os contornos de um sonho profético, costurando toda a dor, a memória e a resistência em um discurso poderoso. É através desse olhar xamânico que Maxita atinge seu ápice, entregando um final que ecoa como um aviso e uma prece. Mais do que um documentário observacional, é um atestado sobre a alienação da sociedade em relação à natureza e um chamado urgente à responsabilidade.
Com apenas 64 minutos de duração, Maxita parece ter pouco tempo para dar conta de tanta história e tanta resistência. Como as próprias diretoras afirmam no encerramento da obra, essa é uma narrativa que ainda não acabou; ela segue sendo escrita diariamente. O filme é um retrato pequeno e contundente de séculos de exploração — que expõe não apenas os massacres em torno do que hoje demarcamos como terras indígenas, mas também as falsas ilusões da mineração. Ele mostra como o homem, movido por sua ganância, explorou e destruiu tudo ao seu redor.

A tragédia de Brumadinho, que deve ser nomeada pelo que realmente é (um crime), foi apenas mais uma entre tantas outras que, por maiores e mais devastadoras que sejam, parecem não ser suficientes para mudar o sistema. É exatamente por isso que este documentário é tão vital: ele existe para nos fazer lembrar, constantemente, para onde realmente devemos olhar e o que precisamos proteger.
