Review | Telúrica, a Íntima Utopia: A arte de existir, no palco, nas telas ou dentro de si

Telúrica, a Íntima Utopia prova que a arte sobrevive nos bastidores turbulentos da mente humana.

A Mostra Competitiva de Longas Nacionais do 15º Olhar de Cinema começou com um documentário diferente, centrado em uma companhia de teatro que resiste e existe há quase 30 anos. A Cia. Teatral Ueinzz foi fundada em 1997, na cidade de São Paulo, formada por pessoas que vivem em sofrimento psíquico.

Telurica – Dir. Mariana Lacerda Foto: Gilvan Barreto gilvan@gilvanbarreto.com

Enquanto companhia, eles lidam com o improviso, o experimental e o sensorial em suas produções. Até que a cineasta Mariana Lacerda entrou de mansinho e começou a filmar os ensaios da encenação da peça Telúrica. O resultado é o filme Telúrica, a Íntima Utopia, uma obra que propõe trazer para o público o que está escondido por trás das “cortinas”.

No filme, acompanhamos os atores encenando suas falas e marcando suas cenas, mas, simultaneamente, os vemos vivendo, conversando e sendo apoiados por cada integrante. A câmera de Lacerda consegue abrir uma fenda entre o “ser” e o “fazer”, entre o momento em que estão atuando e o instante em que estão simplesmente se entregando à experiência coletiva.

A grande e incômoda questão que o filme levanta é direcionada a nós, como sociedade. Essas são pessoas que, aos olhos do sistema, são rotuladas como “improdutivas”. Pessoas que dependem de tratamentos contínuos, apoio e remédios; que muitas vezes não conseguem trabalhar ou agir conforme a norma projetada por muitos. Mas será que, por causa disso, elas não podem criar?

Telurica – Dir. Mariana Lacerda Foto: Gilvan Barreto gilvan@gilvanbarreto.com

É exatamente na construção contínua e bela de uma peça teatral que vemos, pelas frestas, o quanto esses membros são adoráveis, apaixonadas e profundamente comprometidas com o Ueinzz. Sonhos, palavras e modos de existência emergem na tela como espécies frágeis que precisam ser preservadas.

A diretora Mariana Lacerda e sua equipe trabalharam muito bem o improviso do próprio grupo, guiando nosso olhar para histórias e microinterações que estão acontecendo bem na nossa frente. Eles ligam a narrativa da peça à narrativa das histórias de vida dos atores e da própria companhia, transformando tudo em algo único, que se metamorfoseia na tela. Aqui, a ligação entre o teatro e o cinema é reforçada de maneira brutalmente honesta.

Equipe e atores do filme “Telúrica, a Íntima Utopia”. Crédito: Natália Moraes

Como a própria equipe do filme comentou no debate pós-sessão, a diretora iniciou as gravações “no meio” de tudo. O barco já tinha zarpado e encontrado a grande baleia quando Mariana entendeu aquilo como uma força que necessitava, sim, existir e ser vista por tantos outros.

A genialidade da montagem é que não existem explicações didáticas: não há letreiros mastigados dizendo quem são os atores, o que é o Ueinzz ou explicando o histórico médico de ninguém.

O espectador descobre tudo de forma natural ao longo dessa viagem. Entramos no filme como se fôssemos convidados a ficar no canto da sala de um ensaio, descobrindo as interações da obra da mesma forma que os próprios atores estão descobrindo, a cada ensaio, o que querem transmitir no palco.

É realmente lindo quando tantas formas de fazer arte se encontram. Telúrica não é um filme que serve apenas de homenagem a um grupo de teatro tão importante. Ele é um lembrete de que, sim, a arte é profundamente humana e todos nós criamos e fazemos parte dela.

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