O festival Olhar de Cinema tem como característica marcante a valorização de produções autorais. É o espaço ideal para nos perdermos e nos encontrarmos em obras que, muitas vezes, passariam despercebidas pelo grande circuito comercial. São pequenas joias forjadas com muito mais sentimento e devoção à sétima arte do que com o glamour de atores famosos e grandes produtoras.

É exatamente nessa devoção cinematográfica que encontramos O Profeta, primeiro longa-metragem do cineasta Ique Langa. Exibido nesta sexta-feira (05/06) na Mostra Competitiva Internacional, o filme inaugurou muito bem o evento ao lançar um olhar sensível sobre uma comunidade na vila de Manjacaze, em Gaza, Moçambique. A obra, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Roterdã (IFFR), chega ao Brasil trazendo algo incrivelmente familiar e sensorial.
Na trama, acompanhamos um jovem pastor, vivido de forma admirável por Admiro De Laura Munguambe. O personagem se encontra em um momento de profunda descrença sobre sua própria capacidade de levar a palavra do Senhor ao seu rebanho. Mesmo se vendo abençoado após anos de espera, quando finalmente realiza o desejo da esposa de engravidar, ele não sabe como abençoar seus fiéis. É entrando na mente desse pastor que entendemos como o peso de nossas ações pode ser destrutivo, cegando-nos para o divino que caminha ao nosso lado todos os dias.

Para nós, espectadores mais céticos, a sessão cria desde o começo uma expectativa curiosa: para onde seremos levados nessa história toda filmada em preto e branco? A resposta ganha contornos sombrios quando o protagonista, no desespero para levar esperança e ajuda à sua comunidade, recorre a meios duvidosos e acaba sendo atraído para o misticismo. Afinal, se estamos falando de Deus, do outro lado deve existir o diabo.
É fascinante observar a narrativa cair em uma atmosfera sobrenatural, flertando com o terror diante do desconhecido.
Para transmitir esse fardo e essa espiral de desespero, o diretor transforma ações corriqueiras — como o simples ato de acordar e vestir uma roupa — em longos minutos de tela, fazendo com que o espectador sinta fisicamente o peso que esmaga o protagonista. É inegável, no entanto, que a falta de experiência profissional se faz notar no ritmo dessas sequências, uma vez que todo o elenco e a equipe de apoio do filme são formados por mais de uma centena de moradores da própria vila.
Algumas repetições incessantes das mesmas conversas, principalmente entre o pastor e sua esposa, acabam evidenciando isso. Mas, ironicamente, é justamente do engajamento dessa comunidade que emana a verdadeira fé do filme: a vontade cega de se fazer cinema. É a coragem de contar uma história com os seus erros, que às vezes se perde e se alonga, mas que revela o seu verdadeiro valor na honestidade do seu olhar, evidenciado nos belíssimos closes que o diretor faz de seu protagonista.

No fim das contas, Ique Langa prova que sua obra vai muito além de um mero debate sobre dogmas evangélicos. O diretor não culpabiliza divindades ou demônios. Pelo contrário, ele mostra a fragilidade humana e revela que a culpa é o verdadeiro e grande mal que carregamos em vida. Através da morte, vem a sabedoria de que esse peso, enfim, desaparece. Os mortos se tornam memórias; espíritos que, livres de seus fardos, podem apenas dançar — como a própria obra nos presenteia em seus momentos finais. O Profeta não é sobre o que adoramos, mas sobre o que nos torna humanos e a urgência sobre o peso das nossas ações, mesmo quando as intenções são boas.
O Profeta foi exibido na 15ª edição do festival Olhar de Cinema, integrando a Mostra Competitiva Internacional. O longa ainda não tem previsão de estreia no circuito comercial de cinemas.
