Crítica | Tudo Pode Ser Visto: Quem manipula quem? O filme mais bem avaliado e surpreendente do ano

Quando foi anunciado como filme de encerramento da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Tudo Pode Ser Visto gerou uma comoção nas redes sociais e entre o público do festival. Ainda assim, mesmo com a altíssima avaliação nos agregadores de notas, eu não estava preparado para o que iríamos assistir.

Pôster do filme “Tudo Pode Ser Visto”. Crédito: Divulgação

Tudo Pode Ser Visto é um documentário que começa 34 dias antes de a fundadora da Theranos, Elizabeth Holmes, ser presa por fraude. Condenada por enganar investidores, ela convida uma equipe de cinema para registrar cada movimento de sua vida antes de começar a cumprir sua pena de 11 anos. O que inicialmente parece um retrato íntimo de uma das figuras mais relevantes e controversas do Vale do Silício se transforma em uma experiência de três anos que mistura documentário, reality show e psicodrama. Sob o olhar dos diretores Nathan Fielder e Lance Oppenheim, a produção apresenta a vida de Holmes enquanto questiona os limites entre observação e espetáculo, construindo um retrato tão estranho quanto imprevisível.

Elizabeth Holmes foi condenada pela criação da Theranos, empresa que prometia revolucionar a medicina com um dispositivo capaz de realizar uma bateria de exames a partir de uma única gota de sangue, promessa que as investigações provaram ser falsa, já que o aparelho entregava diagnósticos errados aos pacientes. Se apenas contar essa história já seria interessante, Fielder e Oppenheim foram muito além. Eles viveram dentro da casa de Elizabeth, sem filtros e invadindo completamente a privacidade dela e de sua família, criando momentos desconcertantes que são perceptíveis desde o primeiro minuto das quase três horas de filme.

Cena de “Tudo Pode Ser Visto”. Crédito: Divulgação

Nathan Fielder é conhecido por sua habilidade em deixar as pessoas tão constrangidas que acabam revelando até o que não querem. Essa tática funciona perfeitamente com a maioria das figuras com as quais ele tem contato na obra, especialmente o namorado de Elizabeth, Billy Evans, que frequentemente se mostra o mais incomodado e suscetível às investidas do diretor. Mas o que mais assusta são as conversas de Fielder com a própria Holmes. O jogo entre os dois atinge níveis altíssimos de tensão, e ela permanece no limiar entre alguém que está sendo completamente sincera e alguém que está orquestrando a situação inteira. Isso coloca o público diversas vezes em lados opostos na hora de defender as reais intenções daquela mulher. Muitas vezes, parece que Fielder está caindo na manipulação dela; mas, talvez, quem esteja caindo sejamos nós.

Fielder divide a direção com Lance Oppenheim, que assume o comando por trás das câmeras. Todo o documentário é filmado com a estética de um reality show do final dos anos 90, seja pelo formato da tela ou pela câmera sempre intrusiva no rosto das pessoas, dando a sensação constante de que uma grande revelação está prestes a acontecer. Vale lembrar que Oppenheim é o diretor de Primetime (com Robert Pattinson), filme de linguagem muito similar. Em ambos os casos, a escolha funciona com perfeição.

Cena de “Tudo Pode Ser Visto”. Crédito: Divulgação

Como não poderia deixar de ser em um projeto de Fielder, o tom cômico é onipresente. Há cenas em que ele filma uma conversa íntima do casal e, de repente, surge no canto do cômodo com uma expressão de stalker, o que arrancou muitas risadas na sessão em que eu estava. Contudo, o que realmente surpreende é a capacidade do diretor de extrair humor de situações que, por natureza, não deveriam ter graça. O registro de dinâmicas visivelmente tóxicas entre o casal, ao ser assistido sob risos pelo público (e por mim), acabou me causando um forte e intencional desconforto.

Como se tudo já não fosse inusitado o bastante, quando chega o 34º dia de filmagem aquela rotina, Elizabeth se entrega e vai presa. Isso poderia perfeitamente representar o final do documentário. Porém, como muitas dúvidas ainda martelavam a cabeça de Fielder, ele decide procurar Amanda Seyfried, atriz que interpretou Holmes na premiada série The Dropout, e o rumo do longa muda completamente. Fielder inclusive chega a mostrar a série para Holmes, o que rende duas das melhores cenas de toda da produção.

Amanda Seyfried em “The Dropout”. Crédito: Divulgação

A partir desse ponto, o que parecia ser apenas o registro dos últimos dias de liberdade de Elizabeth ganha ares quase investigativos. Fielder e Amanda começam a especular os motivos dela para querer fazer aquele documentário (visto que ela não falava com a imprensa desde 2017) e quais seriam as verdadeiras intenções de Billy Evans após a prisão. A dupla revisita tudo o que havia sido feito até ali, deixando o público totalmente desnorteado.

É fácil presumir que Holmes está no controle e manipulando todos, já que ela foi presa justamente por fazer isso a vida toda. Mas cada conversa e situação apresentada aponta para caminhos distintos. O resultado é um filme em que as conclusões podem parecer muito óbvias, mas sempre acompanhadas por uma constante pulga atrás da orelha.

Cena de “Tudo Pode Ser Visto”. Crédito: Divulgação

Tudo Pode Ser Visto já chega com o status de um dos melhores filmes do ano. A forma como a obra choca e diverte simultaneamente é única. Sem dúvida, ainda ouviremos falar bastante deste documentário ao longo da temporada de premiações.

O documentário estreia nos cinemas do Brasil no dia 26 de novembro de 2026.

Nota:5/5

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