O Sentido da Vida realmente me surpreendeu. Como alguém que não é muito fã do badalado Drive My Car, do diretor Ryūsuke Hamaguchi, posso afirmar que este acabou se tornando o meu filme favorito da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O impacto foi tamanho que me deixa até questionando como o longa não saiu vencedor no Festival de Cannes.

A trama acompanha Marie-Louise Fontaine (Virginie Efira), diretora de uma casa de repouso nos arredores de Paris que decide adotar o método “Humanitude” para cuidar dos residentes, enfrentando a resistência de sua própria equipe. Sua vida ganha um novo contorno quando ela conhece Mari Morisaki (Tao Okamoto), uma dramaturga japonesa em estado terminal. Após se cruzarem por acaso, as duas formam uma amizade profunda que transforma a instituição e a forma como encaram a finitude e o propósito da vida.
Hamaguchi entrega uma verdadeira aula de cinema. O primor não está apenas na forma como ele desenvolve e filma a sua história, mas sobretudo em como constrói a intimidade entre as duas protagonistas. Marie e Mari se aproximam com extrema naturalidade, e a cumplicidade entre elas vai sendo erguida sem qualquer tipo de apelação dramática para forçar essa conexão. O longa entende o tempo de que precisa e se apoia na sutileza de diálogos que passeiam do cotidiano ao existencial. Ele nos carrega para dentro dessa relação, fazendo com que o público se sinta parte íntima daquele lugar.
No núcleo da casa de repouso, a tentativa de Marie em aplicar o método Humanitude esbarra nos funcionários mais antigos. A equipe é resistente, visto que a nova abordagem exige mais trabalho e dedicação de um quadro já reduzido. Porém, quando Mari entra na realidade daquele espaço, as barreiras vão sendo quebradas com delicadeza. O tempo revela que os resultados daquela ideia vão muito além do ambiente de trabalho. Em um lugar que convive diariamente com a proximidade da morte, é exatamente ao abraçar a vida que tudo se modifica.

Paralelamente, Mari está dirigindo uma peça teatral: uma dramatização sobre Franco Basaglia, psiquiatra italiano que lutou pelo fim dos manicômios em seu país. A figura central da peça é interpretada brilhantemente por Kyōzō Nagatsuka no papel de Goro Kiyomia. Atuando inteiramente em japonês, ele entrega momentos de profunda reflexão, criando uma conexão imediata tanto com a plateia do teatro quanto com o público do filme.
A questão da língua é outro elemento utilizado por Hamaguchi para aprofundar essas conexões. Como as duas protagonistas são fluentes em francês e japonês, as conversas fluem naturalmente entre os dois idiomas, ilustrando a quebra de fronteiras na aproximação delas. O sentimento ali transcende a linguagem e as divisões geográficas.
O primeiro encontro das duas, logo após Marie assistir à peça, resulta em uma caminhada reflexiva sobre os males da sociedade atual e a vida corrida que os dias nos impõem. Em resposta a essa urgência do mundo moderno, as duas fazem exatamente o oposto: andam pela noite de Paris sem pressa e sem pensar no dia de amanhã. É, sem dúvida, um dos momentos mais belos da produção.
Com quase três horas e meia de duração, O Sentido da Vida é aquele tipo raro de filme em que não se sente o tempo passar. E, quando os créditos finalmente sobem, o único desejo é que a história não tivesse terminado.

O longa foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e tem estreia prevista nos cinemas dia 21 de Janeiro de 2027.
Nota: 5/5
