Medley é adaptação do livro “Medley ou os Dias em que Aprendi a Voar”, de Keka Reis. No longa acompanhamos é Lola(Mel Maia) uma nadadora talentosa de 16 anos, dona de várias medalhas, mas incapaz de executar o estilo borboleta. Marcada pela misteriosa ausência do pai e por uma relação difícil com a mãe, ela decide passar as férias sozinha em Salto Bonito. Na cidade, ela se apaixona, faz novas amizades e se junta ao enfraquecido time de natação local. Porém, cada vez que entra na água, emoções despertam lembranças dolorosas que ela tentou esquecer. Enquanto se prepara para um importante campeonato, Lola precisa enfrentar os medos e traumas que a acompanham desde a infância. Para seguir em frente, ela também terá de descobrir a verdade sobre o pai.

Medley, dirigido por Ana Luiza Azevedo, nos situa nos anos 1990 de forma excelente. Aliando referências clássicas na ambientação a uma boa trilha sonora, o filme utiliza headphones, tênis, polainas e até orelhões para criar um ambiente nostálgico para os mais velhos, que também funciona bem para os mais jovens, graças a um elenco carismático e dilemas atemporais.
A começar pela relação conturbada com a mãe, que a deixa sozinha nas férias por causa do trabalho, Lola acaba indo para o interior e precisa se adaptar à rotina e às pessoas do lugar. Muitas vezes se sentindo isolada, ela enfrenta essa solidão e as implicâncias comuns da adolescência. Ao se ambientar em uma época em que as redes sociais não existiam, a produção consegue construir muito bem a dinâmica entre os jovens.

Porém, o foco é mesmo a busca pela própria história. Como a mãe nunca revelou quase nada sobre o passado, Lola encontra, na casa do tio, memórias guardadas da família e começa a juntar as peças desse quebra-cabeça que tanto lhe faz falta. Este é, definitivamente, o ponto mais interessante do filme, embora nem sempre se encaixe com fluidez. Falta um equilíbrio ideal entre os dilemas da adolescência, a descoberta do passado e a natação em si.
Logo ao chegar a Salto Bonito, Lola conhece Gabriel, que se torna seu interesse amoroso. Mas, na tentativa de criar um conflito, o roteiro torna essa relação um pouco tóxica em um curto intervalo de tempo, como na crise de ciúmes sem muito fundamento de Lola, o que enfraquece a construção desse e de outros laços.
Tudo isso acontece porque o roteiro tenta abraçar histórias demais: há a briga com a mãe, a jornada de descoberta do passado do pai, o romance, a convivência social com os adolescentes locais e ainda o núcleo da natação — que dá título ao longa e carrega dois subplots próprios: a incapacidade de Lola em nadar o estilo borboleta e o fato de ela estar ocupando a vaga de outra atleta no time.

São muitas subtramas para apenas uma hora e meia de projeção. Pela leveza com que a narrativa é conduzida, muito disso poderia até passar batido por se tratar de “coisas de adolescente”. No entanto, a grande revelação sobre o passado da família de Lola traz um peso dramático enorme, entregue de forma abrupta nos cinco minutos finais. Essa virada súbita muda o tom de tudo, deixando forte a sensação de que aquele tema exigia um cuidado e um tempo de tela muito maiores.
O que segura o filme é o seu elenco. Mel Maia esbanja carisma como a protagonista, criando uma personagem por quem a gente passa pano até quando está errada. Guthierry Sotero entrega um Gabriel tão cativante quanto a heroína, garantindo a torcida imediata do público pelo casal.

O restante do elenco jovem tem pouco espaço a acrescentar, com exceção de Alana Cabral, que vive a filha do treinador de natação e assume o papel de rival no time, mas que também merecia mais tempo. Já no núcleo adulto, nenhum personagem chega a ser bem desenvolvido, nem mesmo a mãe de Lola, interpretada por Mariana Lima, que desaparece durante grande parte do longa e retorna apenas para o discurso final.
Madley é um coming of age divertido, com uma pegada teen que atrai o público, mas que não encontra tempo para desenvolver os pontos mais sensíveis de sua história.
O longa está sendo exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, mas já estreia nos cinemas no dia 29 de outubro.
Nota: 2,5/5
