Crítica | Full Phil: O filme com Kristen Stewart faz do absurdo uma comédia um tanto indigesta

Eu não sabia que precisava de um filme com Woody Harrelson e Kristen Stewart sendo pai e filha, até ter um filme com eles sendo pai e filha.

Em Full Phil, acompanhamos um pai determinado a reconstruir a relação distante com a filha Madeleine (Kristen Stewart). Philip (Woody Harrelson) organiza uma viagem na esperança de recuperar o tempo perdido. Mas os planos daquele pai começam a sair do controle quando uma obsessão inesperada pela culinária francesa, um misterioso filme de terror e a presença excessivamente curioso do hotel transformam a estadia em uma sequência de situações imprevisíveis.

Woody Harrelson e Kristen Stewart em “Full Phill”. Crédito: Divulgação

O diretor, Quentin Dupieux, coloca um tom de comédia absurda desde o início do seu filme, uma estranheza que está presente logo de cara e é muito bem-vinda. Depois da primeira interação entre Harrelson e Stewart, já se cria uma curiosidade sobre para onde o cineasta levar essa história. E cada nova resposta para essa pergunta consegue ser ainda mais surpreendente.

Desde a compulsão alimentar de Madeleine até o problema de entupimento de Phill, as situações podem nos levar às mais diversas interpretações, que o diretor não faz a mínima questão de explicar. Para mim, o mostra como as atitudes dos filhos sempre atingem os pais — sentimentalmente e, às vezes, até fisicamente. Mas confesso que, se algum de vocês me disser o contrário, também pode me convencer.

Mas quando tudo já parece estar estranho o suficiente, um terceiro elemento entra em cena. Charlotte Le Bon interpreta Lucie, uma camareira que resolve ficar de olho em Phil por entender que ele representa uma ameaça à segurança de Madeleine, e a interação entre pai e filha já não será mais a mesma. Le Bon tem aquele tom cômico enquanto fala sério, o que se encaixa muito bem na dinâmica dos protagonistas. Isso, inclusive, acaba sendo um dos pontos negativos, já que a personagem poderia ter sido melhor aproveitada.

Essa sensação de falta de tempo acaba ficando no final do filme. Dupieux poderia ter aproveitado mais de tudo. O grande peso disso recai no plot principal: a reconexão entre pai e filha. O diretor se perde em suas metáforas a ponto de esquecer o principal, e isso se reflete até no público, que, em meio a todo o absurdo, também acaba se perdendo.

Madeleine está assistindo a um filme de monstro que conta com a presença de Emma Mackey, mas que pouco tem a fazer ali, não só a atriz, como esse “filme dentro do filme” como um todo. Toda a interação dos protagonistas é tão boa que, independentemente da interpretação que a obra possa trazer, ela se sobressai no conjunto.

Woody Harrelson interpreta mais uma vez o seu tipo de personagem, e é quem mais se beneficia da interação com as outras duas atrizes: o personagem dele cresce mais pela presença delas do que por sua própria atuação.

Já Kristen Stewart consegue bilhar mais a cada novo papel. Ela traz um ar debochado, de quem não se importa com nada, típico de uma filha adolescente, mas com a maturidade de quem já é independente o suficiente para saber que não precisa se moldar para agradar ao pai.

É uma atuação que ajuda na identificação do público, já que, apesar de a personagem estar perto dos 30 anos, ela mistura atitudes com as quais pessoas de qualquer idade podem se identificar. E ainda há toda uma questão física na interpretação dessa personagem, que passa o tempo todo comendo com as mãos, sem se preocupar com ninguém e com nada do que acontece à sua volta. É facilmente o ponto alto do longa.

Full Phil é um filme que facilmente poderia ir além, mas que, de qualquer forma, será daqueles de render uma bela discussão após a sessão.

O longa foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Ainda não há data de lançamento definida no Brasil.

Nota: 3,5/5

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