Review | Colegas e o Herdeiro: Sequência tem coração gigante, mas se perde em seu próprio caminho

Em 2012, Colegas marcou a cinematografia brasileira como um road movie premiado. A obra tratou pessoas com síndrome de Down com respeito e profissionalismo. Hoje, quase 15 anos depois, temos a grata oportunidade de revisitar os personagens que nos cativaram naquela história — e conhecer novos — com a estreia da sequência Colegas e o Herdeiro, que chega aos cinemas neste dia 13 de agosto.

Sob a direção e roteiro de Marcelo Galvão, a trama adota uma roupagem de fábula. A história nos é apresentada por um narrador, funcionário do Instituto Santa Lúcia, que em uma noite escura conta para as crianças sobre um grupo de alunos que viveu uma grande aventura.

É através dessa narrativa lúdica que conhecemos o novo grupo formado por Letícia, Igor, Duda e Fernando. O objetivo dos jovens mais corajosos da instituição é reencontrar o velho amigo Stallone (Ariel Goldenberg), que agora vive no Uruguai e enviou uma carta afirmando ser o herdeiro de um hotel em Punta del Este. A fuga clandestina ganha proporções imensas quando eles embarcam em um avião de carga e cruzam o caminho de ladrõe, transformando uma simples visita em uma viagem perigosa.

Cena do filme “Colegas e o Herdeiro”. Créditos: Divulgação/H2O Films

O esforço da produção e o talento dos atores, que incluem não apenas pessoas com síndrome de Down, mas com outras deficiências intelectuais, são inquestionáveis. O elenco principal traz nomes como Ariel Goldenberg, Breno Viola, Rita Pokk, João Vitor de Paiva Bittencourt, Deto Montenegro, Luiza Godoi e Fafy Siqueira. A dinâmica entre eles funciona de forma encantadora.

As cenas no interior da instituição são o ponto alto do filme. Acompanhar as tramoias noturnas dos alunos e o plano de fuga é tão divertido e genuíno que o filme poderia facilmente se sustentar focando apenas nesse microcosmo.

Cena do filme “Colegas e o Herdeiro”. Créditos: Divulgação/H2O Films

Infelizmente, é impossível não notar a distância entre o peso cinematográfico e referencial do longa de 2012 e esta continuação. Se o primeiro foi um marco, a sequência soa apenas como uma visita saudosista. A figura do narrador em voice-over faz o público esperar que as situações absurdas sejam apenas um exagero de quem conta a história, porque, na prática, muitas cenas soam desconexas e irreais.

Algumas piadas e situações soam desnecessárias, apoiando-se em um tipo de humor que talvez funcionasse há quinze anos, mas que já não encontra espaço hoje. O roteiro força romances e utiliza de situações de invasão de privacidade e comentários sobre a aparência física e intelectual dos personagens que destoam do carinho com o qual a obra foi concebida. Além disso, falta profundidade dramática aos personagens: os arcos se resumem a sair de um ponto, chegar a outro e esbarrar em bandidos no caminho. Assim como os protagonistas parecem perdidos até chegar ao Uruguai, o filme parece se perder em meio às suas infinitas possibilidades.

Cena do filme “Colegas e o Herdeiro”. Créditos: Divulgação/H2O Films

Refletindo sobre a responsabilidade do projeto, o diretor Marcelo Galvão destacou a verdadeira intenção da obra:

“Era uma responsabilidade muito grande. Por isso, em vez de tentar superar ‘Colegas’ artisticamente ou repetir sua trajetória nos festivais, preferi concentrar meus esforços em valorizar a diversidade desse elenco extraordinário de jovens com deficiência. Buscamos construir uma narrativa que envolvesse o público e revelasse o talento de cada um deles. O que falta não é talento, mas oportunidade.”

​E, de fato, a oportunidade foi dada e muito bem aproveitada pelo elenco. Colegas e o Herdeiro tropeça em sua estrutura, mas se sustenta pelo afeto, por continuar homenageando o cinema (assim como o primeiro longa, mas dessa vez buscando inspiração nos filmes de Wes Anderson), pela importância inegável de sua representatividade e pelo brilho de seus protagonistas.

No fim, a história prova que o direito não é apenas o de sonhar, mas o de realizar, mesmo quando a sociedade insiste em nos cercar com muros.

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