Review | Um Calendário Incompleto: O petróleo como ilusão de soberania e resistência anti-imperialista

O ponto de partida de Um Calendário Incompleto, da diretora Sanaz Sohrabi, é um artefato tão inusitado quanto intimista: um vinil pouco conhecido de 1980 chamado “Rhymes and Songs for OPEC“. Gravado pelo coro da Universidade Central da Venezuela para celebrar o 20º aniversário da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), o disco atua como uma ponte magistral do micro para o macro. Documentários que utilizam uma organização para rastrear grandes transformações históricas não são incomuns, mas a forma como Sohrabi utiliza a OPEP como lente de aumento torna a obra singular.

Imagem do filme “Um Calendário Incompleto”. Crédito: Divulgação/Olhar de Cinema

Exibido na noite do dia 8 de julho, na Mostra Competitiva Internacional da 15ª edição do Olhar de Cinema, o documentário propõe uma reflexão necessária. Discutir a exploração do petróleo nos países do chamado “Terceiro Mundo” exige uma nova percepção, e o filme entrega exatamente isso.

Ao combinar as canções do vinil venezuelano com um material de arquivo raramente acessado, o filme redefine o “ouro negro”. Pode parecer estranho à primeira vista, mas a obra evidencia como o petróleo não foi apenas um combustível, mas uma força que moldou a cultura global e a geopolítica. Ele deixa de ser retratado meramente como uma mercadoria comercial para ser compreendido como uma verdadeira alavanca política, fundamental para as lutas de libertação na Palestina e para a pavimentação da solidariedade pan-árabe entre as décadas de 1960 e 1970.

A fluidez estética documental que a diretora adota é envolvente. Sohrabi realiza um mergulho profundo em uma pesquisa arquivística riquíssima. A diretora retrata alguns espaços culturais erguidas em vários países da OPEP, frutos diretos dos petrodólares que começavam a entrar, oferecendo vislumbres de um passado onde a riqueza natural financiou a construção da identidade e o orgulho nacional.

Imagem do filme “Um Calendário Incompleto”. Crédito: Divulgação/Olhar de Cinema

Contudo, o elemento mais surpreendente e o verdadeiro encanto visual da investigação de Sohrabi está nos detalhes: selos postais, jornais e revistas da época. Através da filatelia e da imprensa local, ela documenta o antes e o durante das campanhas de nacionalização com uma precisão quase poética. Articulando essas peças, o documentário narra como a apropriação dos próprios recursos foi usada como sinônimo de soberania, manifestando-se de formas díspares, ora como impulso genuinamente revolucionário, ora de maneira arbitrária e autoritária.

É exatamente neste ponto que o filme tangencia uma de suas feridas mais profundas, evidenciando uma contradição brutal: como, socialmente, a injeção maciça de dinheiro e a ascensão de um poder geopolítico sem precedentes não se traduziram em desenvolvimento real. O capital financiou infraestruturas monumentais e propagandas estatais, mas falhou em sanar as fraturas e as desigualdades históricas de seus povos. É o retrato nítido de que o enriquecimento dos governos não garantiu a emancipação de suas sociedades.

Contudo, esse acaba não sendo o foco incisivo da narrativa da diretora. O documentário enriqueceria ainda mais se aprofundasse os desdobramentos sociais e as campanhas revolucionárias, que acabam subexplorados — especialmente considerando que muitos desses países sucumbiriam, futuramente, a governos tirânicos. A própria engrenagem do domínio econômico dos Estados Unidos, grande antagonista dessa soberania, só é exposta com maior profundidade na reta final da obra. O que é totalmente compreensível com o próprio título do documentário.

Imagem do filme “Um Calendário Incompleto”. crédito: Divulgação/ Olhar de Cinema

Um Calendário Incompleto não é apenas um resgate de memória; é um ensaio visual poderoso sobre resistência. Mas é, acima de tudo, uma constatação melancólica sobre o poder. Ao final, a tentativa de afirmação dessas nações escancara uma autonomia frágil, uma ilusão de controle que, inevitavelmente, esbarra e se estilhaça diante das forças imperialistas que realmente comandam a ordem e o mercado global.

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