O documentário As Noites e os Dias de Miguel Burnier, com direção de João Dumans, teve sua estreia na noite de 8 de junho, destacando-se na Mostra Competitiva Brasileira. A obra volta suas lentes para o pequeno distrito de Miguel Burnier, em Ouro Preto, hoje reduzido a cerca de apenas 80 habitantes, que tem sido o objeto de imersão do cineasta desde 2019.
Ao longo de quatro anos, Dumans e sua equipe reduzida, porém incansável, conviveram lado a lado com os moradores que habitam aos pés da mineradora Gerdau. A presença da empresa, que no discurso comum deveria representar progresso, empregos e esperança, revela uma engrenagem muito mais sombria na prática. É nesse cenário, marcado pela escassez de oportunidades, onde o álcool, muitas vezes, se torna o único e constante companheiro, que testemunhamos o esforço diário de um grupo de amigos para manter a vida pulsando neste esquecido distrito minerário do interior do Brasil.

A força da narrativa reside na escolha de focar a lente na intimidade de quatro personagens centrais, com destaque especial para Zezé e Dadá. Por meio de suas rotinas, o filme transcende a mera exposição das mazelas locais. Ele joga luz sobre uma profunda pulsão de vida, revelando o carinho pelo distrito que insistem em florescer em meio à poeira de minério.
Inicialmente concebido por Dumans como um filme-denúncia, impulsionado pela dura realidade de moradores que hoje entraram na justiça exigindo reparação pelos impactos cotidianos da mineração e a garantia de segurança e qualidade de vida, o documentário encontrou seu verdadeiro coração ao abandonar o tom estritamente jornalístico.

O diretor optou por um caminho muito mais sensível e imersivo. Ao adentrar as casas e partilhar os dias e noites dessas pessoas, a câmera captura, com delicadeza, como a mineração sugou a vitalidade da região.
Ao final da projeção, percebemos o quanto nós, espectadores, também nos tornamos íntimos daqueles moradores tão reais.
Dumans precisou fazer um recorte narrativo bem duro para acompanhar de perto esses quatro personagens e, embora isso faça com que talvez não tenhamos acesso a tantas outras facetas e lados da situação, a escolha não diminui o peso da obra. Pelo contrário: o filme escancara como as indústrias mineradoras não são prejudiciais apenas para o meio ambiente, mas profundamente destrutivas para o estado psicológico de cada indivíduo.

É sufocante acompanhar a rotina de quem vive imerso em um barulho constante que atravessa os ossos, fazendo com que cada um precise buscar, à sua própria e dolorosa maneira, uma forma de silenciá-lo.
