Crítica | ​Por que Dia D é o filme mais chocante do Spielberg em anos?

O novo filme de Steven Spielberg de E.T. O Extraterrestre (1982) e Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977) chega aos cinemas buscando explorar ainda mais o nosso fascínio, a nossa curiosidade e também o nosso medo do desconhecido.

Em Dia D, Daniel Kellner (Josh O’Connor) é analista de uma agência governamental que foge com segredos de Estado que prometem mudar tudo o que conhecemos. Com a ajuda do ex-colega Hugo Wakefield (Colman Domingo) e da jornalista Margaret Fairchild (Emily Blunt), ele precisa escapar da perseguição de Noah Scanlon (Colin Firth). Scanlon é o responsável por manter essas informações em sigilo e fará de tudo para impedir que Daniel consiga divulgá-las ao público.

A primeira coisa a dizer é: NÃO ASSISTA AO TRAILER e não procure saber detalhes sobre a trama. Serei o mais vago possível sobre isso aqui. Permita-se ser encantado, surpreendido e até “bagunçado” por essa nova história de Steven Spielberg.

Cena do filme “Dia D”. Crédito: Divulgação/Universal Pictures

“É o Spielberg do Velho Testamento.” Essa foi a frase que ouvi de uma colega na saída da sessão resume bem a experiência. O diretor está muito confortável e consciente daquilo que está dizendo e mostrando; tudo está perfeitamente no lugar. O roteiro de David Koepp resgata o encantamento da parceria deles em Jurassic Park, entregando uma narrativa envolvendo que consegue mesclar bons momentos de ação com passagens mais reflexivas. Já a trilha de John Williams traz de volta o fascínio pelo desconhecido de E.T. e abraça a obra com muito acerto.

Tudo isso é complementado por um elenco perfeito para a trama. Josh O’Connor, com sua “carinha de padre”, luta pelo que acha certo e transmite muita firmeza em suas convicções. Emily Blunt interpreta uma personagem que abraça o desconhecido e se fascina com ele, mesmo cheia de dúvidas e de um certo medo.

Colman Domingo atua quase como o narrador, o mestre do jogo, aquele que conhece os caminhos, ainda que não tenha todas as respostas, uma figura parecida com o Morpheus para o Neo e a Trinity em Matrix. E quem seria mais perfeito do que Domingo para nos convencer de qualquer coisa? Por fim, Colin Firth surge no lado oposto, representando o governo; um homem disposto a tudo para defender o que julga correto e manter o poder que aquele segredo lhe confere.

Cena do filme “Dia D”. Crédito: Divulgação/Universal Pictures

Portanto, é difícil encontrar algo que não se encaixe aqui. Claro que a experiência ainda depende de uma certa entrega do espectador. Afinal, nem todo mundo que escuta uma “verdade” está realmente pronto para ouvi-la.

Os extraterrestres de Spielberg, no entanto, sempre foram instrumentos para abordar questões profundamente humanas — como família e amizade, por exemplo. Aqui, eles podem ser lidos como a própria representação da humanidade e de como lidamos com a nossa própria história.

Quando uma vida extraterrestre chega à Terra, a primeira coisa que os detentores do poder fariam (ou fizeram) seria destruir evidências, apropriar-se de qualquer tecnologia que possuíssem e usar esse conhecimento para aumentar seu domínio.

Foi exatamente isso que a humanidade fez ao longo de sua trajetória com tudo o que era diferente: monopolizou recursos e conhecimentos para dar ainda mais poder àqueles que já o detinham, ou se aproveitou das próprias pessoas para subjugá-las e discriminá-las.

Cena do filme “Dia D”. Crédito: Divulgação/Universal Pictures

Spielberg usa o lúdico para nos lançar nessa jornada de autoconhecimento e vai além: ele nos pergunta se estamos prontos para questionar a nossa própria verdade. Afinal, somos tão cheios de certezas que, quando elas são colocadas em xeque, podem nos levar à beira do precipício. E essa é uma das perguntas mais instigantes que o longa propõe: a humanidade está pronta?

Esse é outro ponto que pode gerar certa divisão no público: o filme levanta muitas perguntas, mas traz poucas respostas. Então, não espere que o diretor explique tudo ou pegue você pela mão durante o percurso; ele não fará isso. O final, inclusive, pode ser chocante e dividir opiniões justamente por deixar um vácuo proposital. Mas, se você chegar até lá entregue à história e à sua proposta, a experiência será quase perturbadora.

Cena do filme “Dia D”. Crédito: Divulgação/Universal Pictures

O diretor aborda os pilares de poder e controle mais importantes da nossa história — a religião, a ciência e a política. Eles servem como pontos de vista de uma mesma narrativa, ou melhor, como as mãos que tentam controlá-la. Cada um tem suas próprias convicções e visões. Talvez o filme pudesse ter ido um pouco mais a fundo nesse aspecto, mas correria o risco de perder aquele encantamento pelo desconhecido e pelo lúdico, tão presente na obra. É como se Spielberg dissesse: “Eu vou continuar falando de E.T.s; vocês aí, do outro lado da tela, que lidem com a realidade por trás disso”.

Quando decide fazer suas revelações, Spielberg joga tudo no nosso colo, mas não nos dá muito tempo para processar as consequências. Isso aumenta a sensação de perguntas não respondidas. Contudo, como eu disse, comigo funcionou: esses questionamentos ainda vão bater à minha porta por muito tempo.

Cena do filme “Dia D”. Crédito: Divulgação/Universal Pictures

Steven Spielberg retorna ao mundo dos extraterrestres contando uma história que fala muito sobre nós mesmos. Uma obra que pode ser tão perturbadora quanto encantadora; basta saber se você está pronto.

Nota:4,5/5

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