Crítica | Como Se Divorciar Durante a Guerra: Filme explora relações muito além do conflito

Escrito e dirigido pelo lituano Andrius Blaževičius, Como Se Divorciar Durante a Guerra adentra os sentimentos e os motivos que levam duas pessoas a construírem e destruírem um casamento, mostrando que, às vezes, nem sabemos o que realmente temos ao nosso lado.

Cena do filme “Como Se Divorciar Durante a Guerra”. Crédito: Divulgação

A trama se passa em 2022, em Vilnius, capital da Lituânia, durante o início da invasão russa à Ucrânia. Ali vivem Marija (Zygimante Jakstaite) e Vytas (Marius Repšys), um casal à beira do colapso. Marija é uma executiva de sucesso, e Vytas, um diretor e roteirista de cinema frustrado que assumiu o papel de cuidar do lar enquanto a esposa trabalha. Marija, insatisfeita com a vida monótona que leva, resolve pedir o divórcio, e agora o casal precisa lidar com a separação em meio à crise de refugiados e às suas próprias crises de meia-idade.

A cena inicial é um ótimo indicativo de que o que veríamos pela frente seria de alto nível: é o momento em que Marija comunica a Vytas sua decisão de se separar. O casal vai levar a filha a uma aula de violino e, logo após a jovem sair do veículo, Marija expõe sua decisão. Ela expressa sua frustração com a passividade do marido no relacionamento, enquanto Vytas tenta entender os motivos, argumentando que faz tudo o que ela deseja. Marija dirige o veículo enquanto Vytas segue passivo no banco do carona, os dois presos em um espaço do qual ele não quer e ela não consegue sair. Uma excelente metáfora visual para expor o estado daquela união.

Como o próprio título antecipa, o longa tinha o grande desafio de equilibrar o drama familiar com as questões que o conflito trouxe para a rotina das pessoas ao redor, e principalmente para a deles mesmos. E conseguiu. Andrius Blaževičius não apenas dedica o mesmo peso a ambos os temas, como constrói uma relação direta entre eles. É instigante observar como Marija e Vytas reagem à mudança de suas vidas enquanto o mundo se transforma, e a maneira como as pessoas conduzem a rotina diante da crise geopolítica explica muito da própria guerra.

O casal tem uma filha, Dovile, e a narrativa reserva um arco próprio e bem desenvolvido para a menina. Dovile é madura para sua idade e demonstra uma postura muito clara quanto ao conflito que acompanha pelas notícias — até que a mãe é chamada à escola porque a garota brigou com um colega russo. Além disso, a jovem acaba se tornando peça central para que Marija decida abrigar refugiados em casa.

Após sair de casa, Vytas volta a morar com os pais, que são favoráveis aos russos, fazendo com que visões de mundo antagônicas entrem em choque. Com o tempo, no entanto, ele encontra uma oportunidade de reinvenção por meio de performances artísticas pacifistas.

Cena do filme “Como Se Divorciar Durante a Guerra”. Crédito: Divulgação

O conflito familiar vivenciado por Vytas se aproxima bastante da realidade brasileira. Desentendimentos no núcleo familiar, sobretudo entre pais e filhos, tornaram-se constantes no cotidiano diante da polarização política no Brasil. Assim, muitas relações se tornam insustentáveis pela absoluta impossibilidade de diálogo, frequentemente envolvendo gerações mais velhas apegadas a uma visão de mundo que já não se sustenta.

Para Marija, a tensão se transfere para o ambiente profissional, quando a empresa onde trabalha decide manter ativa sua filial russa. Ao tentar defender suas convicções, ela toma atitudes buscando apoio de colegas de trabalho e de sua nova namorada. Ao perceber a ausência dessa rede de apoio, Marija se sente cada vez mais isolada.

Esse é mais um reflexo identificável em nosso contexto: o modo como trabalhadores são pressionados a relevar ou aceitar posicionamentos corporativos por medo de perder o ganha-pão. A trama escancara a fragilidade do sistema para quem tem menos recursos e necessita do trabalho para sobreviver. No fim, fica a amarga impressão de que a postura moral rigorosa só é cobrada daqueles que nada têm.

Até mesmo o ímpeto altruísta de Marija ao abrigar refugiados acaba desgastado diante das complexidades práticas que a situação impõe à sua rotina. O discurso humanitário revela-se muito mais fácil na teoria do que na prática, uma dinâmica visível a qualquer um que observe as redes sociais atualmente.

Cena do filme “Como Se Divorciar Durante a Guerra”. Crédito: Divulgação

Outro aspecto relevante é a forma como o roteiro subverte clichês estruturais da sociedade, em que historicamente o homem provê a casa e a mulher cuida dos afazeres domésticos. Ao inverter a figura do “macho provedor”, o filme expõe com inteligência a fragilidade e as incoerências desse modelo tradicional.

O desfecho do filme pode se provar divisivo para o público, já que carrega um tom agridoce e a sensação incômoda de que nada mudou. É como se a jornada não levasse a uma catarse ou lição aprendida. Contudo, a nossa realidade não opera de forma semelhante? Não vivemos em uma sociedade cada vez mais amnésica e individualista? Afinal, quantas notícias sobre a guerra na Ucrânia você leu hoje?

Em relação ao casal protagonista, o filme utiliza a separação para expor como Marija e Vytas se desconectaram de suas próprias identidades ao longo dos anos. Ao mesmo tempo, o isolamento os faz perceber que aquilo que os tornava melhores juntos também se perdeu pelo caminho.

Cena do filme “Como Se Divorciar Durante a Guerra”. Crédito: Divulgação

Como Se Divorciar Durante a Guerra demonstra que um casamento exige o equilíbrio contínuo entre a individualidade e o companheirismo de duas pessoas distintas, permitindo que se complementem sem se anularem. E, de preferência, sem que seja necessária uma guerra para que percebam isso.

O longa foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, mas ainda não possui previsão de estreia nos cinemas brasileiros.

Nota: 4,5/5

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