Uma ficção científica ambientada no sertão brasileiro, onde o monstro é muito mais real, e mortal, do que a grande maioria das criaturas criadas pelos estúdios de Hollywood. Essa é a premissa instigante de Yellow Cake, primeiro longa-metragem do diretor Tiago Melo, já consagrado por seu trabalho como documentarista e como produtor de grandes sucessos do cinema nacional, como Boi Neon e Bacurau. Filme de abertura da 15ª edição do Olhar de Cinema (04/06), Yellow Cake teve sua primeira exibição no Brasil durante o evento.

Protagonizado por Rejane Faria e Tânia Maria, o filme nos leva a Picuí, na Paraíba, uma região com um sombrio histórico de instalação de estrangeiros para a exploração de recursos minerais durante a Segunda Guerra Mundial. E isso sempre instigou Tiago, que também dirigiu o curta-metragem documental “Urânio Picuí”. Yellow Cake é um projeto que ele vem lapidando há quase 10 anos.
Durante a coletiva de imprensa, realizada nesta quarta-feira (05/06), o diretor revelou que seu grande desejo sempre foi fazer um filme de monstro. E que criatura seria mais aterrorizante e letal no nosso dia a dia do que o Aedes aegypti? O mosquito é o grande vilão na jornada de Rúbia Ribeiro (Rejane Faria), uma doutora nuclear que se junta a um grupo de pesquisadores norte-americanos em uma tentativa arriscada: usar urânio para combater o mosquito e conter a disseminação da dengue. Como dita a boa ficção científica, as coisas dão terrivelmente errado, instaurando um caos apocalíptico na região.

O sertão paraibano prova ser o cenário perfeito para uma história que mescla fatos reais e uma visão contundente sobre as barreiras que os pesquisadores enfrentam no Brasil e a população local lida com essas intervenções. O longa entrega uma crítica clara, resumida em uma das frases mais fortes da protagonista:
“O tempo da ciência não é o mesmo tempo que o da política.”

Yellow Cake traz uma cientista como protagonista e levanta uma bandeira essencial: sim, nós fazemos ciência no nosso país. Tiago soube fazer ficção utilizando um elemento que está diariamente nos nossos noticiários, algo com o qual convivemos diariamente, para criar tensão real. É neste ponto que a sua veia de documentarista brilha: usar a memória local como guia e utilizar imagens reais, com o apoio da Fiocruz, o que confere um realismo perturbador e, de certa forma, uma beleza incômoda à tela.
A fotografia é, sem dúvida, um dos pontos altos. O uso da paisagem, que transita de forma belíssima entre a seca e o verde florescendo, é quase mágico. O diretor revelou que a proposta original era filmar o longa inteiramente na seca, mas o clima mudou, a chuva caiu, e a produção inteligentemente abraçou o imprevisto. A mudança da paisagem foi incorporada à narrativa como o ponto de virada da personagem de Rúbia, que sai em busca de uma solução para o desastre ambiental causado.
O elenco é outro acerto. Tânia Maria interpreta uma personagem que funciona como um espelho da ingenuidade de parte da população diante de uma crise de proporções catastróficas. Já a personagem de Rejane precisa rasgar suas origens para finalmente encontrar sua voz e partir para a ação. O elenco se completa com o ótimo Valmir do Côco e atores locais que foram perfeitamente escalados, trazendo uma naturalidade que aprofunda a imersão da história da região.

Apesar dos acertos, a estrutura de Yellow Cake sofre com uma divisão muito brusca em seu roteiro. A primeira metade do filme foca no drama e na exposição. Acompanhamos o retorno de Rúbia a Picuí, a explicação sobre o uso do urânio, os perigos da radiação, o impacto do Aedes aegypti e o histórico da presença estrangeira predatória na região.
O desastre se concretiza na segunda parte do longa e afeta brutalmente os moradores. É aqui que Tiago Melo realmente “pira” no melhor sentido possível, abraçando a liberdade criativa e o cinema de gênero. O longa mergulha no terror e na atmosfera apocalíptica de fim de mundo.
Particularmente, adoro essa parte final. A transformação do mosquito em um transmissor letal dentro de um cenário desolador é excelente, provando que os verdadeiros vilões da história são, como sempre, os erros humanos. No entanto, as duas metades acabam soando desconexas, uma transição que quebra o ritmo do longa e deixa a sensação de que estamos assistindo a dois filmes diferentes.

Com previsão de chegada aos cinemas até o final de 2026, Yellow Cake é uma produção corajosa no cinema nacional. Mesmo com o ritmo oscilante causado pela divisão de gêneros em seus atos, é uma obra que comprova o poder do cinema brasileiro em criar ficção científica de alta qualidade e criatividade, usando nossos próprios “monstros” diários para aterrorizar e, acima de tudo, fazer pensar.
Confira o trailer de Yellow Cake:
