Diretor reflete sobre os bloqueios de criação em um filme que o coloca no centro do problema.

Não é tão incomum vermos diretores envoltos em críticas como “já não é mais o mesmo”, “precisa voltar às suas origens” ou aquele simples “se perdeu”.
É nesse momento da vida do diretor de cinema fictício Raúl que o diretor Almodóvar se coloca em sua autoficção.
O protagonista é um cineasta renomado, mas que em 2026 enfrenta um grande bloqueio criativo, ao mesmo tempo que sente a urgência em filmar. Ele sabe que o seu lugar é no set e, para isso, busca uma nova história. Paralelamente a isso, conhecemos Elsa, que em 2004, após a morte de sua mãe, repensa sua carreira e os rumos de sua vida.

Logo descobrimos que Elsa é a personagem do novo roteiro de Raúl, que escreve a sua autoficção. Elsa é Raúl, que usa sua própria história para superar esse bloqueio criativo pelo qual está passando.
É a metalinguagem dentro da metalinguagem. Almodóvar cria um personagem à sua semelhança, que está criando uma personagem à sua semelhança. É como se a forma que o diretor encontrou para enfrentar os próprios demônios tenha sido olhar para a situação do lado de fora.
A premissa é interessante, mas que funcionaria melhor se a sessão de terapia para a qual Almodóvar nos convida estivesse bem mais adiantada do que realmente está.

Existe um certo receio no roteiro do filme. Ele nos mostra que existe um problema e que reconhece esse problema, mas que ainda é muito cedo, ou muito delicado, para realmente tocar na ferida. Falta uma profundidade ao lidar com os dilemas propostos nessa reflexão.
E o próprio filme confronta essa situação quando se aproxima do fim, no momento em que a personagem de Mónica, assistente de muitos anos de Raúl, o confronta diante da previsibilidade e da falta de conteúdo de seu roteiro, em uma das melhores cenas do filme.
Num certo ponto, o filme traz uma afirmação que diz: “Mas com o seu nome embaixo, as pessoas vão querer assistir”.
E é notável, e uma das melhores coisas do filme, que ele ainda é um filme de Pedro Almodóvar e tem muito disso nele. A estética é maravilhosa, é tudo muito harmonioso, o que faz com que seja um filme prazeroso.
Esse receio em se aprofundar acaba chegando só depois, já que, durante a exibição, a jornada é muito gostosa de acompanhar. Ou será que esse sentimento é só porque é um filme de Pedro Almodóvar e, se fosse de outro diretor, não seríamos tão cuidadosos e até mesmo reflexivos ao falar dele?

Existe uma semelhança em Natal Amargo com O Quarto Ao Lado, filme anterior de Almodóvar: ambos buscam temas intensos, mas, no fim, não conseguem tratá-los com a relevância necessária para que se tornem memoráveis. Parece sempre que falta alguma coisa, falta chegar a algum lugar após evidenciar suas questões. É quase como se quisesse deixar a reflexão para o público, já que ele mesmo não a faz.
Outra coisa que falta é um grande conflito, o que deixa o filme sem um ápice que entregue alguma emoção. O filme pensa demais e age pouco. O diretor expõe os conflitos dos seus personagens, mas não chega a colocá-los em xeque, a não ser quando é tarde demais.
Raúl e Elsa têm relacionamentos com homens mais novos, que são muito presentes em suas vidas, mas que são constantemente deixados de lado. Até mesmo uma tragédia é colocada no filme, numa tentativa de trazer um grande drama para a vida deiros protagonistas, mas ela também chega tarde demais, e ainda vinda de um personagem que surge somente para isso.
Isso deixa ainda mais clara essa falta de urgência em qualquer coisa que o filme tente fazer; é tudo muito morno.
Bárbara Lennie faz Elsa e Leonardo Sbaraglia faz Raúl, dois personagens que quase são um só. Mas, mesmo que a história seja sobre Raúl, Elsa acaba se tornando mais protagonista na trama, o que faz Lennie também tomar esse destaque para si.
Sbaraglia entrega menos e, mesmo quando o roteiro o coloca mais em evidência no fim do filme, é Aitana Sánchez-Gijón, que faz a Mónica, quem se destaca.

O filme tem outros personagens que poderiam ganhar mais importância, como os namorados Bonifácio (Patrick Criado) e Santi (Quim Gutiérrez), que poderiam ser pontos de conflito interessantes para que Raúl realmente enfrentasse suas questões, mesmo que fosse através de Elsa. Mas, no fim, entram como mais uma ponta que foi deixada solta no filme.
Natal Amargo é facilmente um filme reconhecível de Almodóvar, mas que parece ainda ter um longo caminho nessa sua terapia. Talvez até coubesse naquela caixinha de filme de streaming, como o próprio longa se questiona, mas eu sempre vou indicar que vocês vejam Almodóvar no cinema.
Natal Amargo chega aos cinemas brasileiros em 28 de maio de 2026.
