Crítica | “O Drama”: o melhor filme do ano é um verdadeiro terror matrimonial! O que aconteceu com Emma (Zendaya) e Charles (Robert Pattinson) no final?
Kristoffer Borgli, diretor de O Drama, entrega um dos filmes mais interessantes do ano ao transformar a celebração de um casamento em um verdadeiro necrotério de projeções.
Zendaya no filme “O Drama”. Crédito: A24 / Diamond Films
Brilhantemente estrelado por Robert Pattinson (Charles) e Zendaya (Emma), o longa marca o primeiro encontro da dupla em 2026, que ainda dividirá a telona em Odisseia e Duna: Parte 3. No entanto, a obra vai muito além da entrega de seu elenco. Todo o mistério em torno do enredo foi alimentado por críticos e criadores de conteúdo, que orientam o público a irem assistir “sem saber nada”. E, de fato, o impacto da revelação é forte, pois ele caminha na direção oposta do que se espera de quem amamos. Contudo, o segredo que a trama carrega é apenas um detalhe em comparação à profunda jornada reflexiva sobre a relação em si.
A narrativa usa o segredo da protagonista para investigar algo mais profundo: a aterrorizante percepção de que, por mais que dividamos a vida com alguém, essa pessoa permanecerá para sempre um desconhecido.
Cena do filme “O Drama”. Crédito: A24 / Diamond Films
A história acompanha um casal na semana do casamento. O que deveria ser um prelúdio festivo desanda quando, em uma brincadeira de final de noite com amigos, eles são desafiados a revelar a pior coisa que já fizeram na vida. Esse “jogo” desencadeia uma série de atritos e desconfianças que corroem os noivos a poucos dias de subirem ao altar.
Charles, um curador de museu, reage à confissão de Emma não apenas com surpresa ou uma esperada empatia, mas com o pânico de quem vê uma peça valiosa de sua coleção se quebrar. Essa dinâmica frágil permeia toda a relação, refletindo-se até mesmo em características que poderiam parecer ínfimas. Emma possui uma deficiência auditiva, uma cicatriz do passado que escondeu de todos. Sob a lente do diretor, o silêncio transcende a condição física da personagem, tornando-se uma poderosa metáfora para a distância emocional entre os dois.
Cena do filme “O Drama”. Crédito: A24 / Diamond Films
A grande força do filme reside na forma como Borgli explora o casamento como um ato de performance social. Para Charles, a insistência em manter a união, apesar da crescente paranoia em relação à parceira, não é sustentada pelo amor a Emma, mas sim por um esforço extenuante de preservar as aparências, transformando o relacionamento em uma vitrine onde a imagem de estabilidade importa mais do que reforçar aquela conexão ou apoiá-la.
Nesse sentido, O Drama sugere que o matrimônio pode atuar como uma suspensão da realidade: um universo onde nossas camadas, individualidades e ações são enterradas ou moldadas em favor de uma narrativa que satisfaça as expectativas alheias. O horror aqui não mora no sangue ou na violência; ele habita no sufocamento dos sentimentos e na proibição de errar em prol de uma perfeição inalcançável. O verdadeiro terror reside no peso insuportável de carregar a projeção que o outro faz de nós e que fazemos de nós mesmos diante dos outros.
Cena do filme “O Drama”. Crédito: A24 / Diamond Films
O que realmente acontece com casal no final do filme? (Com Spoilers)
O desfecho da obra é, a um só tempo, poético e perturbador.
A ironia central está no fato de que, enquanto o segredo sombrio de Emma atua como um fantasma pairando sobre a festa — mais na mente dela e dele do que, de fato, na boca dos convidados —, é a “fraqueza” mundana de Charles que acaba arruinando tudo. Ao ser nocauteado pelo namorado de uma colega, a fachada do protagonista desmorona diante de todos os convidados. O homem termina literalmente quebrado no chão de sua própria exposição de “vida perfeita”.
O filme, então, nos conduz a um encontro final do casal em uma lanchonete. Esse era o cenário que Emma cita no início do filme como o lugar ideal para “terminar a noite” de forma divertida pós-casamento — ideia que Charles, na época, considerou completamente inapropriada.
Quando Emma e Charles começam a conversar como se estivessem se conhecendo pela primeira vez (uma brincadeira recorrente ao longo do enredo), Borgli propõe que o amor real só é possível quando as versões idealizadas morrem. É preciso aceitar que estamos sempre conhecendo o outro, porque o outro está em constante transformação. Reconhecer-se como estranhos é, ironicamente, o ato mais honesto e amoroso que o casal já teve.
Cena do filme “O Drama”. Crédito: A24 / Diamond Films
Entretanto, dada a estrutura narrativa ácida do diretor, é impossível ignorar uma interpretação mais trágica: a de que esse encontro final não aconteceu, sendo apenas mais uma projeção de Charles.
Sob esse prisma, a lanchonete torna-se o refúgio dissociativo de uma mente que não suporta o caos da realidade. Charles estaria apenas imaginando que Emma entrou no local, criando na própria cabeça um recomeço fantasioso para apagar o peso amargo do fim.
Cena do filme “O Drama”. Crédito: A24 / Diamond Films
O Drama é um longa que dá espaço para atuações contidas e brilhantes de Robert Pattinson e Zendaya. Eles se complementam de tal forma que fazem o público torcer legitimamente pelo casal, mesmo enquanto encenam as profundas rachaduras daquela relação.
Ao demonstrar que o nosso instinto de querer viver uma grande história de amor é inevitável, a obra questiona se a união matrimonial é realmente o ápice da conexão humana ou apenas uma moldura que sustenta dois desconhecidos. O casamento seria a união de pessoas que têm pavor da própria solidão e que, juntas, habitam a mesma mentira: que somos incompletos.