Definitivamente, estamos na era das adaptações cinematográficas de Colleen Hoover. A autora tem sua base de fãs fiel, mas também coleciona polêmicas que a rondam, principalmente pela forma displicente com que muitas vezes aborda temas densos e sensíveis em suas obras.
O pontapé inicial dessa leva nos cinemas foi o aguardado É Assim Que Acaba (2024), cujos os bastidores renderam desentendimentos públicos entre o diretor e ator Justin Baldoni e a estrela Blake Lively. No final de 2025, Se Não Fosse Você estreou de forma esquecível, enquanto Verity, o thriller de maior sucesso da autora, chega ainda este ano com um elenco estrelado e grandes expectativas.
Mas, para quem quer conferir mais uma aposta da “franquia Hoover”, Uma Segunda Chance chega aos cinemas brasileiros neste dia 19 de março, distribuído pela Universal Pictures e trazendo a própria autora como produtora e co-roteirista, ao lado de Lauren Levine.

Dirigido por Vanessa Caswill, o longa acompanha Kenna (Maika Monroe), que foi presa por um erro que culminou na morte do grande amor de sua vida, Scott. Sete anos depois, ela é solta e retorna à sua pequena cidade natal na esperança de reconstruir a vida e, principalmente, de conquistar a chance de se aproximar de sua filha, Diem (Zoe Kosovic). O grande obstáculo é que os avós paternos de Diem, que detêm a guarda da criança, recusam qualquer tentativa de aproximação. É nesse cenário de rejeição que Kenna encontra uma compaixão inesperada em Ledger (Tyriq Withers), dono de um bar local e que, para complicar, era o melhor amigo de Scott (Rudy Pankow) — embora, convenientemente, não a conhecesse nos meses daquele verão em que os dois namoraram.
O filme tenta se vender como uma comovente história sobre maternidade, perdão e segundas chances, mas rapidamente naufraga no tédio, reduzindo-se a uma relação forçada e sem empolgação que surge entre os protagonistas.

Apesar da premissa dramática promissora, a execução tropeça na história e na escalação. O roteiro tenta construir uma relação romântica entre Kenna e Ledger que beira a dependência. Ela usando o dono do bar como a única ponte possível para chegue à filha, enquanto para ele, Kenna se torna a possibilidade de viver um amor sem precisar subtrair Diem de sua vida. Ledger assume a figura paterna que a menina não teve, mas a dinâmica soa estranha. Mesmo que não seja a intenção da história, no filme, a aproximação dos dois não soam naturais; Ledger parece simplesmente estar tomando para si a vida, a filha e a mulher do amigo morto, enquanto Kenna dá a impressão de estar apenas usando-o para alcançar a criança.

Para piorar, falta química entre os protagonistas. Maika Monroe não consegue entregar a intensidade necessária ao lado de Tyriq Withers durante a jornada da personagem para se reestabelecer e provar aos ex-sogros que é uma mulher responsável. A apatia de Monroe contamina até mesmo os flashbacks: nas pouquíssimas cenas que mostram o passado de Kenna e Scott, não conseguimos entender a profundidade daquela paixão. Monroe não entrega expressão nem nos momentos que deveriam ser genuinamente felizes, mesmo antes da tragédia. Quem acaba salvando essas breves memórias é Rudy Pankow, que consegue esbanjar simpatia no pouco tempo de tela que tem como Scott.

O maior erro de Uma Segunda Chance, no entanto, é a forma como lida com o tempo e o peso de seus próprios conflitos. Toda a jornada de retorno de Kenna, o desenvolvimento do romance proibido e a grande resolução final não transmitem a passagem real do tempo. A sensação que fica é de que tudo se desenrola ao longo de um único fim de semana, o que destrói o envolvimento do espectador e a credibilidade das relações. Até mesmo o grande clímax emocional, que envolve o “segredo não tão secreto assim” do porquê Kenna assumiu a culpa do acidente anos antes, parece esvaziado. A resolução inteira do filme poderia ter sido facilmente alcançada com uma conversa sincera de dez minutos entre ela e os ex-sogros logo no início da trama.
Uma Segunda Chance tenta ser um épico de redenção e amor, mas a falta de sintonia do elenco e um roteiro que apressa emoções complexas fazem com que a adaptação não passe de um drama superficial e sem desenvolvimento. É um filme que desperdiça a própria premissa, falhando em encantar no visual, no romance e até mesmo na dor que tenta transmitir.
