Crítica | “Pânico 7” funciona ao viver somente do passado?

Neve Campbell como Sidney Prescott em “Pânico 7”. Crédito: Paramount Pictures

A franquia Pânico comemora 30 anos com a estreia de seu sétimo filme nos cinemas. Responsável por moldar uma geração millennial de fãs de slasher, a saga ganhou novo fôlego a partir de 2022 ao apresentar uma face mais jovem do terror. Melissa Barrera e Jenna Ortega, protagonistas dos capítulos anteriores, reacenderam o amor do público pela franquia como as novas vítimas do Ghostface — e havia uma justificativa sólida para essa renovação.

No entanto, após a demissão de Barrera em 2023 por publicações em suas redes sociais em apoio à Palestina, a saída de Ortega logo em seguida e a recusa de Neve Campbell em participar do sexto filme por questões salariais, o futuro da saga precisou recuar e recalcular rota.

Cena do filme “Pânico 6” (2023) com Melissa Barrera e Jenna Ortega. Crédito: Paramount Pictures

Ainda sob a direção de Kevin Williamson, a produção abriu os cofres para garantir mais um capítulo, e isso significou trazer Sidney Prescott de volta ao centro da história, não apenas como participação especial.

Agora vivendo em uma pequena cidade, dona de uma cafeteria e mãe protetora, Sidney tenta manter distância do passado. Mas, quando sua filha mais velha, Tatum Evans (Isabel May), de 17 anos, entra na mira do assassino, o terror retorna.

A revisão nostálgica clássica da franquia aparece com força, inclusive ressuscitando elementos e personagens de décadas atrás. A homenagem funciona especialmente na cena inicial, quando a casa de “Stu Macher”, palco do massacre do primeiro filme, surge transformada em um Airbnb temático. O longa também resgata elementos e referências ao original: o toque de recolher burlado, a jovem “virgem” com o namorado entrando pela janela, menção a Tori Spelling e um grupo de adolescentes fascinados por terror — ainda que este último apareça menos do que deveria.

Cena de Sidney Prescott (Campbell) em “Pânico” (1996).

No fim das contas, o verdadeiro protagonista é o saudosismo. E é inegável: o filme só se sustenta na presença de Campbell. Prolongar a franquia neste momento dificilmente funcionaria sem uma das final girls mais emblemáticas do cinema. Sid continua forte, resiliente e magnética. Porém, recorrer ao elenco original não garante automaticamente um bom resultado.

Se Barrera e Ortega trouxeram fôlego a franquia, aqui o foco retorna a alguém que já sofreu demais. Isso exigiria uma justificativa dramática convincente, algo que o roteiro não consegue desenvolver. O resultado é um filme divertido, com sequências de morte impactantes, mas sustentado exclusivamente pelo carisma de sua protagonista.

Williamson também demonstra dificuldade em encerrar o filme com impacto: o excesso de explicações desconectadas da jornada de Sidney esvazia a tensão, fazendo com que a empolgação — impulsionada por mortes criativas, um dos pontos altos do longa — perca força na revelação final sobre os assassinos da vez.

As participações especiais que remetem à saga são apenas fan service. A própria Courteney Cox parece deslocada. E, claro, fizeram as duas contracenarem e colocaram na boca de Sidney uma desculpa esfarparada para justificar sua ausência em Nova York no filme anterior. Espero muito que Campbell tenha recebido uma quantia alta apenas por isso.

Cena do filme “Pânico 7”. Crédito: Paramount Pictures

O roteiro ainda tenta inserir uma crítica contemporânea sobre como alguém escondido atrás de uma tela — impulsionado por IA e anonimato digital — pode ser tão ou mais perigoso que um assassino mascarado com uma faca. A ideia é ótima, mas culmina em uma revelação frustrante.

Em relação a Isabel May, sua Tatum é uma adolescente típica, marcada por conflitos com a mãe e pelo peso de conhecer o passado apenas por filmes, livros e documentários — nunca pela voz da própria Sidney. Essa mágoa guia seu afastamento e seus erros, tornando-a vulnerável ao serial killer. May não é uma atriz ruim, mas também não sustenta um protagonismo forte; sua personagem não demonstra a intensidade necessária para eventualmente liderar a franquia no futuro. E, sinceramente, espero que essa não seja a ideia dos produtores.

Isabel May como Tatum em “Pânico 7”. Crédito: Paramount Pictures

Pânico 7 é um filme que diverte, respeita sua história e reconhece a força de sua protagonista original, mas também evidencia que nostalgia sustenta — mas não brilha sozinha. A pergunta inevitável é: a franquia ainda tem algo novo a dizer ou continuará sobrevivendo apenas de seus próprios fantasmas?

Talvez fosse saudável que Sidney e Ghostface descansassem por alguns anos.

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