Crítica | Um interlúdio pós-apocalíptico. s limites de “Extermínio: O Templo dos Ossos”

Seis meses após Extermínio: A Evolução, o segundo capítulo da nova trilogia chega aos cinemas carregando uma missão ingrata: expandir o universo da franquia sem diluir o impacto construído no filme de 2025.

Ambientado ainda 28 anos após a epidemia da Raiva que devastou o Reino Unido, Extermínio: O Templo dos Ossos opta por um caminho mais contido, quase contemplativo, interessado menos na escalada do horror provocada pelos infectados e mais na capacidade humana de fazer o mal, e em refletir sobre o que restou da humanidade em um mundo que já ultrapassou o colapso.

Cena do filme “Extermínio: O Templo dos Ossos”. Crédito: Sony Pictures

A história se estrutura em dois núcleos que funcionam como reflexos um do outro. No primeiro, continuamos acompanhando Spike (Alfie Williams), o garoto de 12 anos marcado pela perda da mãe, que decidiu abandonar o refúgio onde vivia para explorar o mundo dominado pelos infectados. Essa jornada, que poderia sugerir amadurecimento, rapidamente se transforma em pesadelo quando ele é capturado pelo grupo liderado por Sir Jimmy Crystal.

Interpretado por Jack O’Connell, Jimmy é uma figura performática que mistura carisma enlouquecido e violência em um delírio pós-apocalíptico travestido de seita satanista. O’Connell domina a tela com um personagem que parece consciente de sua própria teatralidade, e é justamente aí que o filme encontra tanto sua força quanto sua fragilidade. A gangue de Jimmy representa uma perversão do conceito de comunidade: uma “família” construída não pelo afeto, mas pela submissão e pela brutalidade. Spike, forçado a integrar esse grupo, torna-se testemunha — e vítima potencial — de atrocidades que expõem como, na ausência de estruturas morais, a violência passa a ser não apenas um meio de sobrevivência, mas um valor em si.

Cena do filme “Extermínio: O Templo dos Ossos”. Crédito: Sony Pictures

Esse núcleo utiliza tópicos religioso de forma rasa e previsível, apenas como justificativa para a violência que apresenta. Mesmo quando tenta aprofundar a história de Jimmy Crystal, as motivações e explicações soam batidas. Todo esse arco se origina bem no início do filme anterior e, mesmo ali, já parecia deslocado. Aqui, apesar das tentativas de discutir a perda da humanidade, continua destoando do restante da franquia, a ponto de parecer um filme completamente diferente.

Cena do filme “Extermínio: O Templo dos Ossos”. Crédito: Sony Pictures

O segundo núcleo, mais silencioso e reflexivo, acompanha Ian (Ralph Fiennes), isolado em seu memorial construído com ossadas de infectados. Ali, ele desenvolve uma relação inquietante com Sansão, um alfa. Esse arco é onde o filme se permite ir além do horror convencional e flertar com a alegoria. A dinâmica entre Ian e Sansão evoca a clássica ideia do “médico e o monstro”, mas sem o real interesse em oferecer respostas científicas. O vírus funciona menos como elemento explicativo e mais como metáfora: sobre os limites da racionalidade, sobre a empatia em um mundo de dor e, sobretudo, sobre a ilusão de controle que a civilização insiste em manter mesmo após sua ruína.

Aqui está o material mais interessante que o filme apresenta. O desenvolvimento científico conduzido pelo doutor Ian lança olhares não apenas para como o vírus funciona, mas para o que ele significa — e, quem sabe, até para uma possível forma de combatê-lo. Mesmo que narrativas apocalípticas geralmente evitem falar em cura, esse caminho, aliado ao estudo da natureza humana, poderia levar a franquia a um lugar promissor. No entanto, as decisões tomadas no final do filme praticamente enterram essa possibilidade.

Cena do filme “Extermínio: O Templo dos Ossos”. Crédito: Sony Pictures

Quando esses dois núcleos finalmente se cruzam, O Templo dos Ossos revela com clareza sua função dentro da trilogia: trata-se de um filme de transição. Sob a direção de Nia DaCosta, o longa entrega algumas respostas esperadas, mas o faz de maneira excessivamente segura, mais interessada em ensaiar reflexões estéticas e filosóficas do que em avançar efetivamente a mitologia da franquia.

Cena do filme “Extermínio: O Templo dos Ossos”. Crédito: Sony Pictures

A ausência de um eixo emocional mais forte — elemento fundamental nos filmes anteriores — enfraquece seu impacto, Spike não é tão memorável para ser esse persongem central. O longa retém deliberadamente informações cruciais para o desfecho da trilogia, como o papel das forças militares e o bloqueio regional para conter a disseminação do vírus ao longo desses anos, apresentados de forma mais concreta no capítulo anterior.

Irregular e por vezes frustrante, o filme não é o ponto alto da nova trilogia, mas permanece relevante por insistir na pergunta que sempre definiu Extermínio: quando tudo o que conhecemos desmorona, o que ainda nos torna humanos? Curiosamente, a resposta sugerida no filme original, lançado em 2002, finalmente ecoa aqui. Agora, resta aguardar o terceiro e último capítulo.

Nota: 3/5

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