Crítica | Dele & Dela: a minissérie da Netflix que você não está assistindo — um suspense sobre traumas onde ninguém é confiável

Enquanto todo mundo discute os mesmos títulos de sempre na Netflix, uma das melhores surpresas do catálogo neste início de 2026 passa quase despercebida. Dele & Dela é um thriller psicológico estrelado por Tessa Thompson e Jon Bernthal que aposta menos em reviravoltas fáceis e mais na desconfiança — da memória, da narrativa e, sobretudo, das pessoas que achamos conhecer.

Na trama, Thompson interpreta Anna, uma jornalista, enquanto Bernthal vive Jack, o detetive de uma pequena cidade americana chamada Dahlonega. O reencontro entre os dois acontece da pior forma possível: uma mulher é brutalmente assassinada com 40 facadas na floresta local. O crime força Anna a retornar a um lugar carregado de traumas e a encarar não apenas a morte de uma conhecida, mas também o homem que foi seu marido — e uma separação que claramente nunca foi resolvida.

Cena da minissérie “Dele & Dela”. Crédito: Netflix

A partir daí, tudo se torna turvo. A investigação aproxima Anna e Jack mais do que deveria, e a pergunta que passa a conduzir a série é simples: quem está dizendo a verdade? Mais do que isso, de qual versão dessa história nós, como espectadores, acabamos nos tornando cúmplices?

Baseada no livro homônimo de Alice Feeney, a minissérie tem apenas seis episódios. Nesse suspense, Feeney alterna capítulos entre a mente de Anna, Jack e do próprio serial killer, criando uma estrutura fragmentada que nos obriga a desconfiar não apenas dos personagens, mas também de nossos próprios julgamentos — um dos grandes trunfos da obra original.

A adaptação tenta emular esse recurso ao indicar, no início de cada episódio, o ponto de vista dominante de Anna. A diferença, porém, é crucial: aqui não estamos dentro da mente dos personagens, mas observando tudo à distância, como se olhássemos através de um vidro. Ainda assim, a revelação de quem é o assassino mantém impacto semelhante ao do livro. O preço pago é a diluição da ambiguidade constante, especialmente na relação entre Anna e Jack, que no livro é mais instável e inquietante.

Cena da minissérie “Dele & Dela”. Crédito: Netflix

Com isso, o mistério se desloca menos para “quem matou” e mais para o passado de Anna: o que realmente aconteceu entre ela e suas amigas de escola e de que forma esses eventos moldaram sua vida adulta — e a cadeia de assassinatos que se segue.

Uma ausência particularmente sentida é a subtrama envolvendo violência doméstica e uma morte que acontece anos antes, parte direta da motivação do assassino, que afirma que Rachel não foi sua primeira vítima. A série opta por eliminar esse aspecto, assim como o alcoolismo de Anna. São escolhas que parecem calculadas para facilitar a narrativa e causar mais empatia do público onde qualquer personagem pode ser o culpado. Anna se torna menos dúbia; Jack, mais carismático.

Cena da minissérie “Dele & Dela”. Crédito: Netflix

Nesse sentido, Dele & Dela flerta com referências populares do gênero, mas encontra sua maior força quando se afasta do crime em si e mergulha na culpa, nos traumas e nos vínculos emocionais que nunca se rompem completamente.

No fim das contas, Dele & Dela é menos sobre um assassinato isolado e mais sobre o peso das versões que escolhemos carregar — e sobre como um amor absoluto também pode ser destrutivo. É um suspense que prefere corroer a confiança do espectador a oferecer respostas fáceis. Mesmo sacrificando elementos que tornava o livro tão perturbador, a série se sustenta graças às atuações intensas de Tessa Thompson e Jon Bernthal.

Cena da minissérie “Dele & Dela”. Crédito: Netflix

O mistério permanece até o último episódio: quem matou? Por que tantas mulheres estão sendo assassinadas? O que realmente levou Anna e Jack à separação? As respostas chegam de forma explosiva — e deixam claro que, nesta história, a verdade nunca é um ponto final.

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