O Beijo da Mulher-Aranha, que estreia nos cinemas, é um filme sobre repressão, identidade e sonhos, mas tropeça ao tentar encaixar um drama claustrofóbico de prisão dentro da lógica de um espetáculo musical.

O filme se passa durante o período da ditadura na Argentina, onde Valentín (Diego Luna), um militante preso e submetido à tortura física e psicológica por se recusar a colaborar com o regime, recebe em sua cela Molina (Tonatiuh Elizarraraz), um homem detido por ser homossexual. O encontro entre os dois gera uma relação improvável. Mais do que um romance, o que se estabelece ali é a colisão entre duas formas de resistência — uma política, outra afetiva.

Essa tensão entre forma e conteúdo não é acidental; ela também faz parte da própria história da obra. O problema não é ser um musical, mas perder a oportunidade de usar esses elementos para se conectar com a realidade. O Beijo da Mulher-Aranha nasceu como romance de Manuel Puig, em 1976, escrito sob a sombra das ditaduras latino-americanas. A obra virou peça teatral em 1983 e, em 1985, ganhou sua adaptação mais célebre pelas mãos de Hector Babenco, com Sônia Braga, que transformou o Brasil em palco de uma narrativa sobre sobrevivência durante a ditadura. A nova versão, dirigida por Bill Condon e protagonizada por Jennifer Lopez, não adapta esse filme, mas a produção da Broadway dos anos 1990.

É em momentos de ódio e tensão que Molina começa a narrar a história de seu filme preferido a Valentín. É assim que eles constroem essa ponte sentimental, mostrando que, no fundo, não são tão diferentes. Molina projeta ali sua própria fantasia de amor e liberdade. A diva vivida por Jennifer Lopez é menos uma personagem e mais um espelho do desejo de existir plenamente. Como em “As Mil e Uma Noites”, é essa história que mantém Molina e Valentín vivos: pequenos milagres de entretenimento dentro de um espaço de brutalidade. Contar histórias é resistir.

Um dos principais problemas está na escolha de Diego Luna para um papel que exige, ao mesmo tempo, contenção dramática e potência vocal. Luna funciona — e sempre funcionou — muito melhor como figura de resistência do que como cantor. Basta lembrar de Andor, série da Disney+, em que ele interpreta praticamente o mesmo tipo de personagem: o homem endurecido pelo sistema. Colocá-lo para cantar não acrescenta à sua atuação — apenas expõe suas limitações.

Quando um governo ditatorial se instala, a cultura também vira refém. Não é apenas o corpo que é aprisionado, mas a possibilidade de sonhar. Nesse sentido, O Beijo da Mulher-Aranha é sempre uma história que precisa ser contada às novas gerações. O problema é que, ao transformar essas fantasias em grandes números musicais, o filme parece mais interessado no brilho do espetáculo do que no abismo que essas fantasias tentam encobrir.
E aqui entra Jennifer Lopez. Embora luminosa e visualmente encantadora, sua presença funciona mais como um objeto bonito em cena do que como parte orgânica da metáfora ligada a Molina. Sua diva é colorida, glamourosa e idealizada, como os sonhos dele — mas soa deslocada, artificial. Há algo de envelhecido e forçado nesses números, como se Bill Condon fosse além da clara homenagem aos musicais clássicos e acabasse reduzindo tudo a isso. O resultado é que o que deveria ser a expressão máxima dos sentimentos dos personagens soa apenas como ilustrações desbotadas de seus desejos.

É claro que é injusto comparar diretamente dois filmes separados por mais de quarenta anos. Ainda assim, a versão de Babenco, indicada a quatro Oscars e vencedor na categoriade Melhor Ator, tinha uma densidade política e emocional que esta nova produção apenas atualiza, sem realmente alcançar.
Não posso deixar de apontar a atuação de Tonatiuh Elizarraraz, que constrói um Molina verdadeiramente maravilhoso. Mas, infelizmente, nem seu talento consegue fazer o público se entregar plenamente à ligação amorosa que surge entre Molina e Valentín.

O novo Beijo da Mulher-Aranha tenta aquecer, mas não queima. E, para uma obra que fala justamente sobre a potência de sonhar — e não apenas sobreviver — em tempos de repressão, isso faz toda a diferença.
Nota: 3/5
