Hamnet – A Vida Antes de Hamlet surge como um dos fortes candidatos a diversas categorias do Oscar 2026 e estreia nos cinemas brasileiros para contar o outro lado de uma história de amor e luto.

Baseado no romance de Maggie O’Farrell, que utilizou os poucos registros históricos como base para sua ficção, o filme transforma a morte de um menino de 11 anos em algo maior do que uma tragédia pessoal. Hamnet se torna um retrato de como consagramos e aplaudimos o sofrimento masculino, enquanto a dor da mulher é empurrada para o esquecimento. É isso que o torna tão devastador: ele nos obriga a olhar para aquilo que sempre ficou por trás das cortinas.
É fascinante observar como o longa não revela o nome do marido da protagonista em nenhum momento; apenas no desfecho um persongem fala seu nome completo: William Shakespeare. Porque, na essência, esta poderia ser a história de inúmeras mulheres, independentemente de quem fosse o homem ao seu lado.

Levar uma narrativa assim ao público habituado a consumir e venerar essa figura masculina só poderia estar nas mãos da diretora Chloé Zhao. É preciso sensibilidade para transformar em coadjuvante um dos dramaturgos mais importantes da História. Existem incontáveis obras sobre Shakespeare e infinitas adaptações de suas peças, mas Hamnet escolhe outro caminho: desloca o olhar do gênio para a mulher que viveu à sua sombra.

É em um cotidiano aparentemente simples que o filme revela o preço pago por Agnes (Jessie Buckley), que enfrenta a perda do filho Hamnet ao lado de um William Shakespeare (Paul Mescal) cada vez mais distante. O luto não é tratado como um evento isolado, mas como uma força que reorganiza tudo — até o próprio sentido de existir. E é desse vazio que nasce a peça Hamlet: não como genialidade abstrata, mas como consequência direta do sofrimento de uma família.
Essa escolha de narrativa muda tudo. Porque quantas mulheres foram — e continuam sendo — como Agnes? Quantas apagaram desejos, sonhos e a própria individualidade para que seus parceiros ocupassem o centro do palco? Hamnet não fala apenas do passado. Ele expõe um padrão que atravessa séculos.

O filme foi vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme em Drama, com Jessie Buckley premiada como Melhor Atriz, e é na atuação de Buckley que o filme se sustenta. Ela constrói uma Agnes com uma intensidade que nunca soa exagerada — é pura entrega.
Acompanhamos seu romance com William, o nascimento dos três filhos e sua relação quase simbiótica com a floresta, símbolizando o feminino. Vista como “bruxa” por sua intuição e ligação com a natureza, Agnes carrega um saber sobre a vida que o mundo ao seu redor se recusa a reconhecer. E é justamente por isso que sua essência é, a todo tempo, silenciada.

Ao mesmo tempo, o filme, com suas duas horas de duração, constrói um ritmo que por vezes é monótono — ainda que isso seja intencional. A vida das mulheres, ali, é marcada por ciclos de casamento, nascimento e morte, demarcada pelos retornos e partidas de William ao longo dos anos. Esse vai e vem só ganha pleno significado quando entendemos como retrato social: mulheres cujas existências parecem ganhar valor apenas quando mediadas pela presença masculina.
Paul Mescal, de forma curiosa, é insignificante. Sem destaque e quase esquecível — e isso é parte do conceito. Seu Shakespeare é uma presença espectral, como o fantasma de Hamlet. Ele funciona melhor quando não fala, quando se entrega a um choro contido, dilacerado pela perda do filho e pela percepção de que dessa dor também nasce o seu sucesso.

O outro destaque, além de Buckley, é o pequeno Jacobi Jupe, que interpreta Hamnet. Etéreo e encantador, ele faz com que todos sintamos profundamente sua ausência.
Hamnet não é o melhor filme de Chloé Zhao, mas é daqueles que crescem dentro de você depois que a sessão termina. E a beleza poética de sua cena final permanece — e faz chorar.
Nota: 4/5
