Crítica | Marty Supreme: o talento de Timothée Chalamet não basta!

O vencedor do Critics’ Choice Award 2026 de Melhor Ator é o ponto alto de um filme que demora muito para se resolver, e não o faz de maneira satisfatória.

Em Marty Supreme, um malandro se torna uma das grandes lendas norte-americanas do tênis de mesa. Seu nome é Marty Reisman e, de jogar por dinheiro em apostas em Manhattan, o homem se torna campeão de mais de 22 competições de tênis de mesa, colecionando ainda, aos 67 anos, o título de atleta mais velho a vencer um campeonato nacional de raquete dura.

Timothée Chalamet e o diretor Josh Safdie nas gravações de “Marty Supreme”. Crédito: Diamond Films

É inspirado em Reisman que Josh Safdie e Ronald Bronstein criam Marty Mouser, personagem de Timothée Chalamet, que se recusa a ser apenas mais um trabalhador convencional e fará de tudo para alcançar seus sonhos impossíveis.

A direção de Josh Safdie é o que mais chama atenção desde o primeiro minuto. Assim como em um jogo de tênis de mesa, o ritmo é energético, criando uma narrativa intensa, com poucos momentos de respiro. Praticamente tudo o que acontece com Marty Mouser nos leva a entender o quanto seus sonhos são megalomaníacos e o quão extrema é a dificuldade de alcançá-los. Seja no esporte, nas relações ou na falta de dinheiro, são desafios quase insuperáveis que parecem acontecer ao mesmo tempo.

Isso não é novidade na filmografia de Josh Safdie. Não é difícil lembrar de Joias Brutas e Bom Comportamento ao assistir Marty Supreme, e isso não é necessariamente ruim — são ótimos filmes. Temos diálogos rápidos, cheios de sarcasmo, personagens que parecem sempre ter uma resposta para tudo e que, dessa forma, criam uma espécie de encanto, mesmo quando são odiosos e egoístas, como é o caso de Marty.

Cena do filme “Marty Supreme”. Crédito: Diamond Films

É aqui que Chalamet se mostra o maior acerto do filme. Ele toma Marty Supreme para si de uma forma que nos faz pensar que é daquelas obras que simplesmente não funcionariam com outro ator. Marty Mouser não é uma boa pessoa: trata mal a mãe, é tóxico com a namorada — que, inclusive, é uma mulher casada —, engana praticamente todos ao seu redor, transformando-os em instrumentos para conseguir o que quer, e menospreza qualquer um que cruza seu caminho. Em resumo, todo mundo que passa por ele sai pior. Isso é um risco para qualquer produção, porque mesmo personagens ruins precisam gerar algum tipo de conexão com o público. E, se alguém é capaz de nos fazer torcer por Marty, esse alguém é Chalamet.

Cena do filme “Marty Supreme”. Crédito: Diamond Films

Mas, enquanto a narrativa empolga, a história em si parece cheia de buracos. São muitas relações mal construídas: algumas parecem sobrar, enquanto outras são pouco exploradas. Principalmente quando falamos do esporte, é difícil entender a real importância de Marty para o tênis de mesa e o quanto aquilo mudaria sua vida. Como quando ele se envolve com um fabricante de bolinhas de pingue-pongue e seu filho, dando ideias para a produção, que acabam não levando a nada no filme — e nós, como espectadores, também não entendemos aonde isso iria. Outro exemplo é o final do personagem, quando ele toma uma grande decisão que aparenta ter enormes consequências, mas que o filme simplesmente deixa de lado, resolvendo tudo de forma fácil demais.

Com cerca de duas horas e meia de duração, a sensação é que poderia ser bem mais curto. E isso não é sobre tempo, mas sobre repetição. O problema é como o roteiro estica demais alguns plots desnecessários para transmitir a ideia que o filme quer passar. Um exemplo, sem grandes spoilers: Marty se envolve com um cachorro cujo dono pede que ele cuide do animal, mas, como esperado, ele não cumpre o combinado. Já entendemos que esse dono é mais uma pessoa enganada por Marty. No entanto, o cachorro volta umas quatro vezes à história, envolvendo ainda mais personagens, em sequências que poderiam ser cortadas sem grande prejuízo.

Odessa A’zion em cena do filme “Marty Supreme”. Crédito: Diamond Films

No restante do elenco, não há grandes destaques. Como o filme pula rapidamente de uma situação para outra, muitos dos personagens que orbitam Marty aparecem pouco. A exceção é Odessa A’zion, que interpreta Rachel, a namorada casada, que retorna algumas vezes, sempre como um obstáculo entre Marty e seus objetivos — e, ao mesmo tempo, alguém que quer fazer parte deles. No marketing, também se destaca Gwyneth Paltrow como Kay Stone, uma atriz famosa que se envolve com Marty, assim como seu marido, Milton Rockwell (Kevin O’Leary), um empresário que Marty tenta transformar em patrocinador para ir ao mundial e que acaba virando uma espécie de antagonista. Nesse caso, talvez o pior personagem do filme: todas as interações com Milton são particularmente ruins.

Cena do filme “Marty Supreme”. Crédito: Diamond Films

Marty Supreme é daqueles filmes fáceis de assistir, em que a forma acaba se sobrepondo ao conteúdo, e até ajuda o público a gostar mais do que deveria. E, claro, com Timothée Chalamet à frente, isso se torna fácil.

Marty Supreme estreia em 22 de janeiro, e possui Gwyneth Paltrow, Odessa A’zion, Fran Drescher, Tyler Okonma e o cineasta Abel Ferrara no elenco.

Nota: 3,5/5

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