De Férias com Você (People We Meet on Vacation), adaptação cinematográfica do best-seller homônimo de Emily Henry, finalmente chegou à Netflix trazendo aquilo que fez a autora se tornar uma referência na comédia romântica: a habilidade de equilibrar romance, humor e as angústias típicas de nós, millennials, tudo com uma leveza que parece simples. Emily Henry sabe como transformar relações aparentemente comuns em dilemas emocionais profundamente reconhecíveis, e isso está presente no filme, mesmo com algumas mudanças.

A história acompanha Poppy e Alex, dois amigos improváveis que se conhecem na faculdade e criam um pacto curioso: todos os anos, independentemente do rumo de suas vidas, passariam uma semana de férias viajando juntos. Para Poppy, essas viagens funcionam quase como uma bússola emocional, uma forma de dar sentido à própria vida; para Alex, são um respiro dentro de uma vida previsível e regrada. Ao longo de dez anos, essas férias fortalecem uma amizade que, silenciosamente, flerta com algo além do platônico. E o filme provoca o tempo todo a mesma pergunta: quando duas pessoas percebem que são o “lar” uma da outra — independentemente das fronteiras ou sonhos — o que se faz com isso?
Emily Bader entrega uma Poppy espirituosa, caótica e espontânea, e grande parte do humor da personagem funciona justamente por causa de sua performance. Já Alex ganha vida na interpretação de Tom Blyth, que opta por uma versão menos “chata” do personagem. Confesso que senti falta de um Alex maia rígido, cheio de manias e pequenas aversões, como no livro — aquelas características que ele só permite flexibilizar quando está com a Poppy. A escolha funciona para um romance de 1h57, mas acaba suavizando conflitos internos que, na obra original, aprofundam bastante a dinâmica entre os dois e as próprias dúvidas de Poppy. E cenas marcantes do livro — como a conversa entre Poppy e Alex sobre o perfil dele no Tinder — ficaram de fora.

Entre as mudanças, o filme altera um dos destinos: é sob o calor de Barcelona que acontece o reencontro no presente, depois de dois anos sem se falarem, por conta de algo ocorrido na Toscana — revelado apenas no final, como no livro. A mensagem central, no entanto, permanece intacta, e isso me agrada: nunca foram os lugares que importaram, mas as experiências vividas entre eles. Ainda assim, senti falta de mais interações com alguns personagens secundários. A melhor amiga da Poppy, vivida pela ótima Alice Lee, tem pouquíssimo tempo de tela. Em contrapartida, Alan Ruck e Molly Shannon, como os pais da Poppy, são um acerto delicioso, trazendo humor e afeto quando aparecem.
Outro ponto positivo da produção está na trilha sonora, usada como extensão emocional dos protagonistas. A presença de “August”, de Taylor Swift, encaixa-se perfeitamente no tom da história, evocando memórias e a sensação de um verão que deixa marcas mesmo depois de acabar. Mas o detalhe mais encantador está na escolha da música brasileira “Esperar Pra Ver”, de Evinha, que surge como um aceno sensível ao espírito do livro. Para quem leu o romance, é impossível não lembrar da reflexão de Poppy sobre o desejo de viajar para o Brasil, o que transforma essa escolha musical em um gesto carinhoso de conexão entre obra literária e adaptação.
No fim das contas, fiquei com a sensação de que De Férias com Você funcionaria ainda melhor como uma minissérie. Ter mais tempo permitiria explorar com mais calma o passar dos anos, os flashbacks das viagens e, principalmente, o medo central da Poppy: voltar para sua cidadezinha em Ohio, criar raízes, se apegar e se permitir vínculos duradouros — algo diretamente ligado às suas inseguranças e às de boa parte da população jovem adulta.

Mesmo assim, mesmo para quem já leu o livro, é difícil não se envolver com a química entre Emily Bader e Tom Blyth. E, para quem não conhece a obra original, fica a dica de um romance doce e ensolarado, como um dia de verão: gostoso de acompanhar, sincero e fácil de aproveitar, ainda que talvez se perca na memória entre tantos outros dias bons e alguns realmente inesquecíveis.
Com Nem Te Conto e Lugar Feliz também já confirmados para ganhar adaptações, fica claro que teremos mais histórias de comédia romântica de Emily Henry prontas para ocupar — e aquecer — nossos dias.
Nota: 3,5/5
