Chegou aos cinemas no dia 30 de outubro e à Netflix em 19 de novembro o longa O Filho de Mil Homens, dirigido e roteirizado por Daniel Rezende, adaptação da obra do aclamado autor português valter hugo mãe.

Assisti à produção durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Antes da sessão, o próprio escritor, acompanhado do diretor e elenco, subiu ao palco e afirmou, com serenidade: “o filme é melhor que o livro.” Uma declaração ousada, e que naturalmente eleva as expectativas.
Mas será que Rezende conseguiu traduzir para a tela a profunda mensagem de empatia que o livro carrega? E, para quem não leu a obra, o filme consegue envolver emocionalmente o espectador?
Conduzir tantos personagens até um ponto de encontro é um desafio imenso, sobretudo quando a narrativa fala não apenas de amor, mas também de ausências e feridas. Os personagens de O Filho de Mil Homens clamam por afeto, porque, quando o calvário vem de dentro de casa, a dor é mais funda. É essa dor que o filme tenta iluminar com delicadeza.
Transformar sentimentos tão intangíveis em imagem, som e gesto é sempre um risco. O que, no papel, é metáfora e poesia, precisa agora de corpo, de carne. E é aí que o longa se arrisca: em materializar o invisível, o fio que une pessoas não pelo sangue, mas pela escolha. Rezende compreende que o verdadeiro desafio não é apenas adaptar a trama, mas preservar o espírito da mensagem — essa fé obstinada em encontrar ternura. E sim, o diretor consegue fazer isso.

O cenário praiano é um personagem à parte. A areia, o vento — muitas vezes ensurdecedor — e o barulho constante do mar reforçam a solidão que cerca Crisóstomo, vivido por Rodrigo Santoro.
O design de produção de Taisa Malouf é detalhista e precioso: transforma um espaço simples, quase inóspito, em um lar cheio de calor e humanidade, onde cabem risadas, jabuticabas e o conforto do peixe na brasa.
Santoro encarna com sutileza esse pescador que sonha profundamente em ser pai. Sua solidão o afoga, mas, ainda assim, ele guarda amor o bastante para clamar, aos deuses e ao próprio mar, por um filho. Mesmo sendo um homem a quem tudo foi tirado, Crisóstomo continua acreditando na bondade. Ele é a personificação da empatia, e Santoro faz isso com delicadeza: é no olhar, mais do que nas palavras, que ele entrega as emoções de Crisóstomo.

O início do filme é lento, assim como a internalização de alguns sentimentos que estão em tela. A conexão emocional começa a se formar de fato quando as histórias dos outros personagens, que compõem essa família improvável, surgem.
Quando Camilo (Miguel Martinez) é acolhido por Crisóstomo, o pescador descobre que o menino deseja mais do que um pai, ele quer amor em dobro. Quer também uma mãe. É a partir daí que o longa ganha ritmo e força, conduzindo-nos às vidas dessas pessoas. A que mais me tocou foi Francisca (Juliana Caldas), uma mulher que deseja tanto ser amada que aceita o amor de qualquer forma, de qualquer um. Antonino (Johnny Massaro) quer apenas ser aceito por sua mãe, enquanto Isaura (Rebeca Jamir) ainda não entende o significado do amor porque jamais o viu dentro de casa.

Essas cicatrizes os conduzem até aquela casa simples de madeira à beira do mar, o filme finalmente encontra o que tem de mais bonito: a comunhão entre os desamparados.
Visualmente, o filme é deslumbrante. A direção de fotografia de Azul Serra cria imagens que parecem tocar a pele: o vento que rasga a praia, a luz que beija o rosto de Crisóstomo, a ternura da mesa posta e o mar, que completa tudo como uma paleta espiritual.
Mas, apesar dessa beleza, o longa demora a estabelecer conexão. Há algo de paradoxal em seu ritmo: tudo parece estranhamente acelerado, mesmo dentro de sua lentidão, como se essas vidas precisassem correr para se encontrar, sem que tivéssemos tempo de habitar por completo a dor de cada personagem.

O Filho de Mil Homens é uma tentativa de ver o mundo pelos olhos dos que não foram escolhidos, dos que amam mesmo tendo todos os motivos para não acreditar no amor. Talvez o filme nos peça um olhar paciente, para que possamos enfim escutar o que ele realmente quer dizer.
Rezende, acostumado a equilibrar emoção e apelo popular, enfrenta aqui um desafio ainda mais delicado: transformar uma obra essencialmente literária em cinema. O resultado é sensível e belo.
E, respondendo à questão inicial: sim, o filme consegue tocar quem não conhece a obra do autor português. No início, porém, ele pode parecer arrastado, como passar um dia inteiro no mar — envolvente, mas exigindo esforço para não se deixar levar pela preguiça da contemplação. Mas vale a pena persistir: quando Crisóstomo, Camilo, Antonino e Isaura finalmente se encontram, o filme revela toda a força do afeto, da esperança que brota mesmo nos lugares mais simples.
