A Lenda de Ochi: Como quebrar ciclos (e adotar um Pokémon da floresta)

Alguns filmes falam pouco, mas dizem muito. A Lenda de Ochi é um desses. Uma fábula silenciosa sobre medo, coragem e aquilo que nasce quando a gente decide escutar — o outro, a floresta ou até a própria consciência.

Dirigido por Isaiah Saxon, em seu primeiro longa, o filme aposta menos no diálogo e mais na linguagem da natureza — imagens, gestos e silêncios.


A HISTÓRIA

A trama segue Yuri (vivida por Helena Zengel, sempre intensa mesmo no silêncio), uma menina que cresceu ouvindo que sair à noite é perigoso, que certas criaturas são monstros e que há um mundo lá fora que deve ser temido, não explorado. Durante uma caçada com o pai, Yuri encontra um filhote de Ochi machucado — uma criatura mítica, marginalizada e caçada como lenda perigosa. Ao invés de matá-lo, ela decide devolvê-lo à floresta. E assim começa uma jornada que é ao mesmo tempo física e sensorial: uma travessia por paisagens incríveis e medos internos ainda maiores.

Toda boa história começa quando alguém decide quebrar uma regra e a de Yuri inicia exatamente assim.

Helena Zenggel em A Lenda de Ochi.
Crédito: Divulgação / Paris Filmes

A fotografia de Evan Prosofsky é um banho de chiaroscuro, misturando luz e sombra como se o filme tivesse sido processado com luz de vela. Já a trilha de David Longstreth parece ter sido composta com instrumentos de vento e saudade. Tudo é artesanal, tátil, cheio de textura — e o uso de animatrônicos em vez de CGI exagerado dá um ar retrô que encaixa perfeitamente na proposta. É como se alguém tivesse cruzado Os Goonies com Princesa Mononoke e deixado secar ao sol do folclore europeu.

Helena Zengel segura o filme nas costas com a força de quem já encarou um Oscar (sim, a menina de Relatos do Mundo). Finn Wolfhard aparece com seu carisma adolescente habitual, e Emily Watson é a mãe que tenta equilibrar razão e instinto materno.

Willem Dafoe e Finn Wolfhard em A Lenda de Ochi.
Crédito: Divulgação / Paris Filmes

Mas quem rouba a atenção mesmo é Willem Dafoe como Maxim, o pai de Yuri — um militarista teimoso, ranzinza, e completamente fora de sintonia com o mundo ao redor. Sua virada emocional no terceiro ato é rápida porém bonita.

A Lenda de Ochi se comunica menos por palavras e mais por atmosfera — e isso exige que o público se entregue ao ritmo contemplativo da narrativa. Há momentos em que a câmera simplesmente observa em silêncio, uma folha cair ou uma troca de olhares entre Yuri e o pequeno Ochi, e ainda assim essas cenas dizem mais que muitos diálogos expositivos por aí. É um cinema que pede escuta, pede tempo, pede olhar — e, se você topar esse pacto, ele recompensa.

E no coração da coisa toda… A Lenda de Ochi é menos sobre monstros e mais sobre o que a gente escolhe temer. É sobre quebrar ciclos, questionar o que te contaram como verdade e criar laços com aquilo que precia ser o inimigo. A relação entre Yuri e o pequeno Ochi tem aquele charme universal de amizade improvável, mas sem precisar sublinhar tudo. Saxon confia na inteligência emocional do espectador — e isso é refrescante.

Vale a pena?
Se você espera um filme de ação frenética e piadas a cada 5 minutos, talvez ache lento. Mas se topar entrar nessa floresta sem mapa, vai sair de lá com o coração um pouco mais aberto (e com vontade de abraçar uma árvore).

Nota: 4,2/5

Uma fábula sensorial, visualmente deslumbrante, que toca em temas importantes sem didatismo. E sim: Dafoe valeria o ingresso sozinho — mesmo que estivesse só resmungando de capa e bota no meio da neblina.

Confira o trailer:

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